Capítulo 4
Os dois ficaram imóveis.
Maitê estava com a prancheta contra o peito. O uniforme claro marcava a cintura fina que ele ainda estava segurando. Ele a soltou devagar.
- Desculpa. Eu estava distraído.
- Eu também - ela respondeu, ajeitando a prancheta e saindo, não observou seu olhar obcecado.
***
Rafael saiu da piscina e sentou na espreguiçadeira, deixando o sol aquecer seu corpo e dourar ainda mais a pele. A água descia lentamente pelo tórax definido, formando pequenos caminhos até desaparecer no tecido da sunga.
Estava sozinho naquela casa enorme. O silêncio era bonito para quem via de fora. Para ele, era apenas um vazio.
Até o ano passado, ainda tinha a mãe ali. A presença dela preenchia os corredores, a sala de jantar, até mesmo o jardim que ela insistia em cuidar pessoalmente.
Mas uma pneumonia difícil de controlar a levou. Foi o pior dia da vida dele.
Rafael sempre foi apegado à mãe. Extremamente. Ela era sua base, sua única família de verdade. Nunca conheceu o pai, nem ao menos tinha o nome dele nos documentos ou o sobrenome. Era como se nunca tivesse existido.
Ela o criou sozinha. Trabalhou dobrado. Lutou por cada oportunidade que ele teve. O império Valença nasceu do esforço dele... mas a força veio dela.
Ele fechou os olhos, sentindo o calor do sol no rosto. Poder não preenchia ausências. Dinheiro não trazia ninguém de volta.
Olhou para o celular ao lado da espreguiçadeira. Pegou e ficou alguns segundos encarando a tela. Aquilo era ridículo, nem sabia o nome dela. Mesmo assim...
- Rafael? Achei que ainda estivesse dormindo depois da reunião de ontem - a voz divertida do outro lado provocou.
- Preciso de uma informação.
O tom dele era sério demais para brincadeiras.
- Fale.
Rafael respirou fundo.
- A mulher que estava no bar ontem. Morena, cabelo preso, vestido escuro. Estava sozinha. Sentou perto do balcão por volta das dez.
Houve alguns segundos de silêncio.
- Rafael... ontem não foi uma festa aberta. Era uma reunião reservada.
- Eu sei.
- Eu conhecia todos os convidados.
O maxilar de Rafael tensionou.
- Então conheceu mal.
O amigo deu uma risada nervosa.
- Não vi nenhuma mulher com essa descrição.
Rafael ficou em silêncio por um breve momento.
- Você tem certeza?
- Absoluta. E o lugar nem estava tão cheio assim. Eu teria notado.
Silêncio.
- Ela não estava com ninguém? - o anfitrião insistiu.
Rafael apertou os olhos contra o sol.
- Não. Não vi ninguém perto dela.
- Então talvez ela não estivesse lá pela reunião.


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