Imaginei que o Norberto tivesse ouvido a minha conversa com o Gabriel.
Com medo de causar mal-entendidos, expliquei na hora: — É sobre trabalho, o Thiago...
— Que trabalho exige que uma residente de anestesiologia vá ver o nosso neurocirurgião logo de manhã? — Norberto me interrompeu de forma rude, dizendo de mau humor. — Mesmo que você queira arrumar uma desculpa, arrume uma desculpa decente.
Eu olhei atônita para o Norberto, hesitei por dois segundos e perguntei de volta: — Então qual o Dr. Cavalcante acha que é o motivo?
Norberto engasgou, apenas me encarando em silêncio, sem dizer nada.
Ele ainda vestia a camisa branca da noite anterior. Os dois botões do colarinho haviam sido abertos em algum momento, e a gravata pendia frouxa no pescoço, dando a ele um ar abatido.
Mas o olhar estava cada vez mais hostil.
Pensando no Gabriel, que ainda esperava, eu não tinha vontade de discutir com o Norberto, e olhei silenciosamente para o relógio na parede.
— Parece que a Dra. Monteiro está com pressa agora? — Norberto parecia ter percebido a minha intenção, com um tom de zombaria.
Eu não rodeei, indo direto ao ponto: — Se o Dr. Cavalcante não tiver mais nada, eu vou sair.
Assim que dei um passo, o Norberto bloqueou o meu caminho. O cheiro de álcool do homem não havia se dissipado por completo, atingindo o meu olfato.
— Você não vai.
O tom autoritário pesou no meu ouvido. Eu olhei surpresa para o homem à minha frente e o ouvi acrescentar: — Eu já disse, o Gabriel não.
— Eu já disse que é apenas trabalho. — Com a raiva subindo, fechei as mãos e respondi com paciência.
Norberto olhava para mim de cima, mantendo a postura inflexível: — Trabalho também não.
Eu olhei surpresa para os traços familiares do homem, com os pensamentos um tanto dispersos.
Norberto estava sendo irracional.

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