— É o... Dr. Dante que prescrevia medicamentos psicotrópicos aos motoristas de caminhão? — perguntei de novo, incrédula.
Gabriel assentiu com convicção: — Sim, Dra. Monteiro. Você não ouviu errado. O principal responsável por tudo isso foi preso.
Meu nariz ardeu e as lágrimas marejaram meus olhos.
Tanto eu quanto Gabriel sabíamos muito bem o que a prisão do Dr. Dante significava.
Como testemunha principal, ser encontrado pela polícia indicava que as ações da Logística Transoceânica se tornariam públicas do dia para a noite. As vítimas do acidente também teriam a quem cobrar satisfações.
E eu, que fui arrastada de forma inexplicável para esse caso e caminhava em terreno perigoso, correndo risco de tudo desabar a qualquer momento, também recebia o meu momento de me defender.
— Tão grandinha já e ainda chora?
Ao ouvir a brincadeira de Gabriel, engoli o choro e agradeci: — Obrigada, Dr. Neves, por ter vindo de tão longe só para me contar isso.
— Não seja formal — Gabriel deu um sorriso tímido e sugeriu: — Ah, eu conheço uma casa de macarrão muito gostosa. A Dra. Monteiro quer ir provar?
Como estive sem apetite na noite passada, não tinha comido nada. Agora que Gabriel tocou no assunto, eu estava mesmo com fome.
— Vamos — concordei rapidamente e acrescentei. — É por minha conta.
Senti um aperto no pulso e Gabriel começou a me puxar. Olhei para a minha mão direita nas mãos dele e puxei de volta, nervosa.
Gabriel me olhou, e quando viu que estava segurando minha mão, soltou na mesma hora como se tivesse pegado em uma panela quente, pedindo desculpas: — Foi mal, eu...
O jeito estabanado e cômico dele me fez rir.
Às seis da manhã, Porto Real ainda estava imerso no silêncio.
Contornando as ruas envoltas em neblina e passando pelos becos calmos, chegamos a uma casa de macarrão que aparentava ser bem antiga. Antes mesmo de entrar, um cheiro forte de osso de porco invadiu o meu nariz. Pela minha experiência de quem cozinhava há três anos, o caldo estava cozinhando em fogo baixo há pelo menos uma ou duas horas.
— Ora, Dr. Neves — um homem de meia-idade, com rosto simpático, veio cumprimentar Gabriel. Seu olhar passou rapidamente por mim, e ele perguntou surpreso: — Conseguiu uma namorada?

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