Eu não sabia por que Norberto estava parado na porta do quarto do Tio Otávio.
Norberto e o Tio Otávio não se davam bem; não havia nenhuma amizade entre eles. Além do mais, Norberto nunca perguntou sobre a minha família, muito menos se importou, então eu não achava que ele estivesse ali por consideração.
E ele ainda estava suspenso. Ele não era o médico responsável pelo Tio Otávio, então também não precisava passar lá para checar.
Então o que ele estava fazendo ali?
Olhei para ele, surpresa, e vi o rosto fechado do homem. Os lábios finos estavam apertados, e nos fundos daqueles olhos escuros, parecia haver uma maré se agitando intensamente.
Pelo jeito, Norberto estava de muito mau humor. Só naquele momento percebi: há quanto tempo Norberto estava na porta do quarto do Tio Otávio?
Será que ele tinha ouvido ou visto alguma coisa?
De repente, eu me senti culpada, como se tivesse sido pega fazendo algo que não devia. Fiquei tão nervosa que mal conseguia segurar os pauzinhos e levantei depressa. Sem motivo algum, me lembrei daquela noite em que Norberto me arrastou para fora do Solar dos Neves, me jogou no carro e me interrogou como um louco...
Mas foi só por um momento. Logo me toquei: por que eu estava preocupada com um interrogatório de Norberto?
Eu e Gabriel não tínhamos feito nada, e Norberto já tinha concordado em assinar o acordo de divórcio. Nós nos divorciaríamos tranquilamente em um ou dois dias, então não achava que eu precisasse me preocupar com mal-entendidos ou tentar me explicar.
E além do mais, o Tio Otávio não sabia da minha situação atual. Se ele tinha alguma intenção em relação a Gabriel, era até compreensível.

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