— Vocês? — A voz carregava a familiar frieza e o sarcasmo, vindo de trás de mim.
Mas não era a voz de Gabriel.
Meu coração deu um salto, e me virei na mesma hora, apenas para sentir a figura alta se aproximando de repente.
A presença de Norberto sempre foi imponente, mas ao se aproximar bruscamente daquela forma, sua aura era ainda mais ameaçadora. Esquivei-me por instinto, recuando meio passo rápido, até que minhas costas bateram na beirada da pia.
Na minha frente, estava Norberto, com o rosto bonito e frio, me encarando de cima.
A luz branca e fria do banheiro batia em suas costas, iluminando as feições angulares, duras e sombrias de seu rosto, enquanto lançava uma enorme sombra que me engolia por completo.
Era como se eu estivesse esmagada sob aquela montanha de sombra, escura e opressiva.
Apertei o peito e senti a língua travar. Demorou um pouco até eu conseguir perguntar, tremendo: — O que o Dr. Cavalcante está fazendo?
— Vim pegar vocês no flagra, é claro. Quero ver para onde minha esposa vai se encontrar e sair com outro homem. — A voz de Norberto também era sombria.
Ele parecia estar reprimindo suas emoções, mas ao dizer essas palavras, elas jorraram feito magma fervente, fazendo-me querer recuar de novo.
Mas eu não tinha para onde fugir. Só me restava tentar me apoiar e confrontá-lo: — Esposa? A memória do Dr. Cavalcante anda meio ruim. Esqueceu que vamos nos divorciar em breve? Já assinei os papéis anteontem à noite.
Será que ele esqueceu que, anteontem à noite, havia prometido à mãe dele que pediria ao Dr. Wagner Martins para redigir o acordo de divórcio, e que ele mesmo concordou em assinar?

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