Ponto de vista de Riley
A luz da manhã atravessava a estreita fresta das cortinas, lançando uma faixa dourada pálida sobre minha cama de hospital.
Talvez fosse o descanso, ou talvez os remédios finalmente tivessem feito efeito, mas minha dor de cabeça estava menos intensa hoje. Minha mente parecia menos turva, mais... desperta.
Me levantei devagar, calcei as pantufas que Mia havia me trazido e saí do quarto. Eu só queria um pouco de ar. Um momento de silêncio.
Mas o universo tinha outros planos.
Assim que virei a esquina do corredor, uma voz me atingiu como garras raspando um osso.
Doce. Fingida. Familiar.
Scarlett.
Olhei para cima e lá estava ela, andando lado a lado com Maddox.
Usava um vestido branco, maquiagem leve e aguada, como se tentasse encarnar a própria inocência. Uma faixa de gaze grossa cobria sua testa, e toda a postura gritava fragilidade. O tipo de imagem feita para implorar simpatia.
A risada dela morreu no instante em que me viu. Recuou como se tivesse visto um fantasma e, então, suavemente, tão suavemente que me deu arrepios, murmurou:
— Riley...
Maddox também parou. Seus olhos piscaram com algo que não consegui decifrar. Culpa, talvez. Piedade, talvez. Eu não me importava o suficiente para descobrir.
Fiquei parada apenas por um instante.
E então continuei andando. Passei reto por eles.
Como se fossem ar.
Mas Scarlett, como sempre, não suportava ser ignorada. Aproximou-se com a mesma expressão tímida e ensaiada que usava quando fingia estar fraca.
— Você está se sentindo melhor? — perguntou , a voz carregada de falsa doçura. — Maddox e eu viemos te visitar... Para onde você está indo?
Não respondi.
Não olhei para ela.
Mas ela continuou avançando, insistindo, cutucando com aquela preocupação fingida. Ela queria uma reação. Precisava de uma reação.
Então eu dei.
Me aproximei-me, calma e precisa e a esbofeteei com força.
O estalo ecoou no corredor como um chicote. O corpo frágil dela vacilou para trás com o impacto. A maquiagem impecável manchou sob o vermelho vivo da marca da minha mão.
Maddox a segurou antes que caísse. Passou o braço ao redor da cintura dela e, com a outra mão, me empurrou.
Com força.
— O que há de errado com você, Riley? — ele rosnou. — Scarlett veio aqui porque estava preocupada com você. E você simplesmente… a agrediu? Sem nem ouvir? O que há de errado com você?!
A voz dele estava alta, cortante de raiva. Algumas enfermeiras pararam para olhar enquanto passavam.
Cambaleei ligeiramente com o empurrão dele.
Então, sem hesitar, esbofeteei Maddox também.
— Não me toque — sibilei.
O choque no rosto dele foi quase cômico. Os olhos arregalados como se não pudesse acreditar que eu realmente tinha feito aquilo.
Mas eu não havia terminado.
— Quer saber o que há de errado comigo? — avancei um passo. — Eu quero saber o que a Scarlett pensa que está fazendo, enfiando essa atuação falsa de “pobre coitadinha ferida” na minha frente, como se eu tivesse que me importar.
Mantive o tom firme.
— Ela sabe que eu a odeio. Ela sabe que não quero nada com ela. Mas continua aparecendo na minha frente. Então sim, eu a esbofeteei. E faria de novo.
Olhei para ele, firme.
— E você… o que diabos pensa que é, Maddox? O que te dá o direito de intervir como se fosse algum nobre protetor?
Ele me encarou como se eu tivesse crescido outra cabeça.
O garoto que eu costumava seguir como uma cachorrinha. Aquele que chamava de “meu Maddox”. Meu primeiro amor. Minha figura de irmão mais velho.
Agora, me olhava como se não me reconhecesse mais.
Na verdade, eu também não o reconhecia.
— Você mudou — ele disse por fim, a voz tensa. — Você não é mais a Riley que eu conhecia. O que aconteceu com você?
Eu ri. Ri porque, se não fizesse isso, acabaria gritando.
— Você realmente vai dizer isso? Cinco anos, Maddox. Cinco anos trancada em uma cela por um crime que não cometi. Você acha que isso não muda uma pessoa?
O som da palma contra a bochecha ecoou mais alto que antes.
Ele ficou atordoado.
A mandíbula contraída, os olhos piscando, selvagens e desfocados.
Então acertei de novo.
Pela terceira vez.
Com ainda mais força.
A cabeça dele virou para o lado, e o rubor que subiu à pele estava quase arroxeado. O advogado imaculado, o queridinho dos tribunais de lobisomens, agora estava vermelho e sem palavras.
— Ainda quer agir como meu guardião? — perguntei, fria como gelo. — Você acha que importa aqui? Você não é meu companheiro. Não é meu Alfa. Você não é nada.
Passei por ele.
— Eu posso não ser amada na Alcateia Ebonclaw — continuei sem olhar para trás — mas ainda sou irmã da Scarlett. No papel. E se eu quiser dar um tapa de juízo na minha irmãzinha, isso é assunto de família. Você? É só um espectador. Fique fora disso.
Maddox me encarava, boquiaberto, como se eu o tivesse despedaçado.
— Você me bateu… — a voz dele saiu falha.
tinha incredulidade ali. Mágoa. Como se eu tivesse acabado de destruir algo sagrado.
Ele já tinha sido tudo para mim.
E agora?
Era um estranho que eu não suportava olhar.
Não respondi. Apenas segurei o olhar dele.
E, no meu, ele viu a verdade.
Que qualquer parte de mim que um dia se importou, que um dia acreditou que ele era um herói…
Essa parte estava morta.
Enterrada junto com a garota que ele ajudou a mandar para a prisão.
E eu nunca mais a desenterraria.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....