A preocupação de Yunice era algo que Owen nunca tinha considerado, mas ele sabia muito bem, lá no fundo, que ela tinha razão.
Ela estava certa.
Diante de estranhos, Yunice não podia se apresentar como ela própria, nem admitir sua ligação com a família Saunders, do contrário, Elsie acabaria arrastada para o centro da tempestade de opiniões públicas.
Uma identidade não pode ser usada por duas pessoas ao mesmo tempo.
Há pouco, Owen tinha ficado irritado com a postura de Yunice, mas agora seu tom amansou um pouco.
“Elsie ainda está na pós-graduação. Você nem precisa do seu RG agora, então por que não emprestar pra quem realmente precisa? Quando ela começar a trabalhar, ela devolve pra você.”
Yunice riu de si mesma, com amargura. Sempre esperando.
Owen deu um tapinha no ombro dela, suavizando o tom. “Você tem comida e bebida em casa, não precisa estudar nem trabalhar. Sabe quantas pessoas matariam por uma vida dessas?”
Seu tom deixava claro que achava que Yunice estava sendo ingrata.
Ela não respondeu, mas ao ver sua irmã se aproximar, ironizou: “Essa é a tal vida boa? Então por que fazer a Elsie se matar de estudar? A família não tem condição de bancar ela?”
Owen percebeu o veneno nas palavras e seu rosto se fechou, mas não conseguiu rebater.
Todo mundo sabia que era melhor ser competente do que um fracasso. Mas o histórico de doença mental de Yunice agora constava oficialmente nos registros, o que tirava qualquer futuro dela.
Deixar o nome de filha dos Saunders sem uso era um desperdício. Emprestar para Elsie e assim trazer prestígio à família, o que havia de errado nisso?
Mesmo assim, Owen conhecia a verdade. Yunice nunca tinha sido doente mental. Só a declararam assim para evitar que ela tivesse uma ficha criminal.
Elsie tinha vindo chamá-los para o jantar, mas acabou ouvindo o comentário ácido de sua irmã.
Ela fingiu não ter escutado e se aproximou sorridente para pegar no braço de Owen, mas ele se esquivou.
Na verdade, ele guardava certo ressentimento de Elsie. Ser bondosa não era um erro, mas bondade impensada só causava problemas para os outros.
Três anos atrás, se ela não tivesse corrido para o meio do incêndio, eu não teria precisado tomar aquela decisão impossível. E Yunice não teria chegado ao ponto de agredir alguém.
Percebendo a irritação de Owen, Elsie raciocinou rápido. Ela entendeu que ele estava se sentindo culpado com Yunice.
“Irmã, o Owen se importa muito com você. Mesmo com a correria de sempre, ele arrumou tempo pra escolher um presente pra você”, disse, antes de se virar para Owen. “Não foi?”
Tentando ser conciliadora, Elsie estava dando uma saída honrosa para Owen.
Ele lançou um colar em sua direção, com o rosto frio. “É pra você.”
Yunice olhou para o pingente, duas estrelas grandes protegendo uma menor no centro.
Era o presente que eu queria três anos atrás. Mas agora, recebê-lo não significava mais nada.
As pessoas mudam. Três anos atrás, eu valorizava família e amor. Hoje, são as coisas que mais desprezo.
Mas se eu recusasse o colar, Owen com certeza ficaria furioso.
Ela não queria sofrer à toa. Justo quando estendeu a mão, Owen, irritado, empurrou o colar para as mãos de Elsie.
“Tão indecisa e relutante. Se não quer, então não pega! Melhor dar pra Elsie do que desperdiçar com você!”
Elsie congelou, visivelmente constrangida.
Owen nunca teve a intenção de me dar o colar. Só queria provocar Yunice.
Desde quando ele se importava tanto com a reação dela?
Sentindo o clima tenso, Elsie hesitou antes de dizer: “Então eu guardo pra Yunice. Se ela quiser depois, eu entrego pra ela.”
Owen fez um gesto de desdém. “Não precisa. Dar pra ela é jogar sentimento fora!”
Depois que Owen saiu, Elsie olhou para Yunice e logo foi atrás dele.
Yunice pensou um pouco e decidiu segui-los também.
Na sala de jantar, Owen viu que Elsie tinha chegado sozinha. Já estava prestes a criticar sua irmã por ter faltado, quando ela finalmente entrou.
Elsie demonstrou surpresa. Yunice tinha aprendido a lição.
Se ela tivesse chegado um segundo depois, eu teria dito ao Owen que ela não quis jantar. E, conhecendo o temperamento dele, ela teria sido proibida de sentar à mesa de novo.
Criança que chora, ganha colo. No passado, me lasquei por não saber a hora de recuar. Isso não vai mais acontecer.
Não espero mais nada dessa família, nem quero consolo.
Morando de favor, qual o problema em abaixar a cabeça?
Quando recuperar minha identidade, vou sair da família Saunders.
Já sabia como as coisas funcionavam, mas ver a prova concreta da minha insignificância ainda dói, como um corte de faca cega.
Nasci no pior período de brigas entre meus pais.
Minha mãe se recusou a me pegar no colo, por birra. Depois, fugiu e nunca mais foi vista.
Crescer com um só dos pais foi conviver com a crueldade e as fofocas.

Essas frases me seguiram a infância inteira.
Mesmo assim, por muito tempo, ainda tive esperança em minha mãe. Agora, esse sonho infantil estava destruído.
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