O ambiente permaneceu imerso em um silêncio pesado por um bom tempo.
No centro da sala, Mariana finalmente recobrou os sentidos, entendendo que Lorena apenas a fizera de idiota.
Consumida pela humilhação e fúria, ela engoliu o orgulho a força e forçou uma expressão de vítima indefesa, sem sequer ousar cruzar o olhar com Percival.
— Senhor Capelo, eu... eu não sei o que deu em mim. De repente, eu só...
— De repente a sua mão escorregou na tentativa de queimar a minha cara? — Lorena retrucou com sarcasmo, sem lhe dar a chance de inventar desculpas.
— Sua... — Mariana ergueu os olhos, fuzilando-a com raiva contida.
— Já chega.
Assim que a voz profunda e cortante de Percival ecoou, o ar pareceu congelar.
— Senhorita Alves, eu já avisei que não tolero escândalos na Família Capelo, não importa de quem venham. Já que admitiu ter agido de forma premeditada, não há mais motivos para continuarem aqui. Elvis, acompanhe as visitas até a saída!
O rosto de Mariana perdeu a cor novamente. Sendo expulsa logo na sua primeira visita à Família Capelo, como conseguiria manter qualquer prestígio na alta roda da Cidade H no futuro?
— Senhor Capelo, não foi de propósito! Foi um acidente. Quando peguei a xícara, queimei a mão e, por instinto, acabei a arremessando longe...
Sem pressa alguma, Lorena deferiu o golpe de misericórdia.
— Então quer dizer que a culpa é da Família Capelo por não treinar os seus empregados direito?
Mariana ficou sem palavras com aquela crítica certeira. Seus traços, geralmente delicados, distorceram-se com a raiva vulcânica.
— Lorena, por que insiste em distorcer minhas palavras com tanta maldade? Crescemos juntas, afinal... é assim que me vê?
— Quer levar outro tapa para reativar a memória do que aconteceu há pouco? — alertou Lorena com voz fria.
Mariana encolheu-se por reflexo. Seu rosto ainda ardia do primeiro golpe. Desistindo do embate, virou-se para Percival, exalando fragilidade.
— Senhor Capelo, eu me descontrolei porque achei que tinha sido envenenada e também temi pela sua segurança! Fiquei com medo de que alguém quisesse lhe fazer mal. O senhor... não está bravo comigo de verdade por causa disso, está?
Ver a filha forçada a mendigar clemência deixou um gosto amargo na boca de Yana.
Porém, ciente de que não se brinca com Percival, ela foi obrigada a abaixar a guarda e ceder para a pessoa que mais detestava no mundo: Lorena.
— Lorena, eu admito que a Mariana passou dos limites no que disse agora há pouco. Mas você sabe o quanto ela é sensível, foi apenas o desespero que a fez falar sem pensar...
— Além disso, você é a irmã mais velha dela. Não pode simplesmente cruzar os braços e ver a Mariana ser mal interpretada dessa forma, não é? Se isso vazar, o seu pai ficará extremamente decepcionado com você!
Na visão distorcida de Yana, Lorena só voltara para a Cidade H por ter abandonado a própria família biológica. Portanto, certamente se importava com a opinião de Ulisses — afinal, ele havia lhe dado impressionantes cem mil quando ela foi embora.
Lorena, no entanto, foi brutalmente direta em seu escárnio:
— Senhora Yana, se não faz uso dos próprios olhos, deveria doá-los a quem precisa. A verdadeira natureza da sua filha ficou clara para todos aqui. Não há palavras bonitas capazes de transformar o que é preto no branco.
Diante da recusa seca, o rosto envelhecido de Yana ficou roxo de raiva.

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