Depois do jantar, Alden insistiu em lavar a louça junto com Luisa, que relutou, mas acabou permitindo que ele ajudasse, e, assim que terminaram, os três se reuniram na sala para conversar por cerca de uma hora.
Na verdade, a “conversa” acabou se resumindo quase inteiramente a Alden e Luisa trocando flertes e provocações, enquanto Kris permanecia calado, perdido em pensamentos sobre a mulher no andar de cima, que não se deu ao trabalho de descer nem uma única vez.
Quando Luisa decidiu encerrar a noite, Kris subiu para tomar banho, e Alden permaneceu um pouco mais, ajudando-o a trocar o curativo e ajustar a tipoia antes de finalmente ir embora.
Horas depois, Kris ainda se encontrava deitado na cama, com os olhos arregalados, fixos no teto, incapaz de dormir por mais que tentasse, já que não conseguia parar de pensar em Thalassa e, para piorar, seu ombro latejava de forma insuportável.
O médico o havia alertado de que a dor pioraria à noite, mas ele não esperava que fosse tão intensa, a ponto de ser ainda mais agonizante do que no dia em que foi baleado.
Ele já tinha tomado dois comprimidos de aspirina, mas eles mal aliviaram o incômodo, de modo que talvez precisasse de outra dose.
Soltando um gemido, Kris se sentou com cuidado para não agravar o ferimento, pegou o frasco de comprimidos no criado-mudo e saiu do quarto.
Parando no corredor, lançou o olhar para a direita, direção em que o quarto de Thalassa se encontrava, a apenas duas portas de distância. “Tão perto e, ao mesmo tempo, tão inalcançável…” No entanto, ele sabia que só tinha a si mesmo para culpar por isso.
Assim, suspirando fundo, ele desceu até a cozinha.
A maior parte das luzes estava apagada, e ele preferiu mantê-las assim, já que o clarão da lua que atravessava as janelas iluminava o bastante.
Então, pegou uma garrafa d’água da embalagem ao lado da geladeira, tomou mais comprimidos e os engoliu de uma vez, sentando-se em um dos bancos da cozinha, onde percebeu que a dor era mais amena comparada a quando estava deitado.
Ao ouvir passos, Kris se virou bruscamente e o ar lhe prendeu no peito quando viu Thalassa na soleira da porta, com o cabelo preso em um coque bagunçado e o rosto cansado, parecendo mais suave do que algumas horas antes… Até vê-lo.
Congelando no mesmo lugar, ela fechou o semblante de imediato. Por alguns segundos, os dois se encararam, e a tensão se estendeu como um elástico prestes a se partir, levando Kris a acreditar que ela sairia dali.
— Não precisa ir embora por minha causa. — Disse ele em voz baixa.
Ela franziu o cenho como se quisesse dizer, sem palavras, que não tinha intenção de sair, e entrou na cozinha, indo direto até a geladeira. Ao passar por ele, seus braços se tocaram e ela se afastou de imediato, como se o contato tivesse queimado.
— Não conseguiu dormir? — Perguntou Kris.
Porém, apenas obteve o silêncio.
— Eu também não consegui e precisei tomar mais remédio. — Acrescentou depressa, prendendo a respiração na esperança de que ela perguntasse sobre seu ombro, mas Thalassa não disse nada, nenhuma palavra sequer.
Ele a observou pegar a garrafa d’água, beber um longo gole e guardá-la de volta, fechando a porta da geladeira.
E sem sequer olhá-lo, ela estava prestes a sair da cozinha quando Kris quebrou o silêncio:
— Esse é o seu plano?
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