Um sorriso ameaçou surgir nos lábios de Betty enquanto ouvia a troca de farpas entre Kris e Thalassa, mas, ao receber um olhar cortante de Thalassa, ela rapidamente o apagou e substituiu por uma expressão severa.
— Em que estava pensando, rapaz? Poderia pegar uma pneumonia ficando naquela tempestade. — Repreendeu, balançando a cabeça.
Kris deu de ombros, com os dentes ainda batendo, e resmungou:
— Não teria precisado se essa mulher teimosa aqui tivesse simplesmente saído para falar comigo uma vez.
As narinas de Thalassa se dilataram e ela rebateu:
— E você não teria precisado ficar lá fora se tivesse aceitado que não é necessário aqui.
Percebendo a tensão crescente entre os dois, Betty interveio rapidamente, lançando um olhar preocupado para Kris.
— Você está tremendo… Vou pegar um cobertor. É melhor tirar a camisa para se aquecer mais rápido.
— Obrigado. — Kris agradeceu com um leve sorriso, observando a mulher sair, e logo se voltou para Thalassa, apontando para a própria camisa com hesitação. — Poderia me ajudar? Não estou mais usando a tipoia, mas ainda não devo forçar o ombro.
Diante do olhar gélido de Thalassa, Kris decidiu não insistir e, com as mãos trêmulas de frio, começou a desabotoar a camisa sozinho, tirando-a com esforço. A dor, porém, valeu a pena quando ele percebeu o olhar rápido que ela lançou ao seu peito.
— Posso sentar? — Perguntou, indicando uma das poltronas.
Sem responder, Thalassa virou as costas, mas Kris, interpretando o gesto como permissão, se deixou cair no sofá, estremecendo com o toque do ar frio na pele nua. Logo, ele a observou com atenção, reparando nos olhares ansiosos dela para o andar de cima, enquanto seu corpo todo permanecia tenso.
— Por que me seguiu até aqui, Kris? — Ela exigiu de repente, voltando-se para fulminá-lo com o olhar.
— Eu só fiquei preocupado com a forma abrupta como você veio para Nova Luz. — Respondeu Kris.
Os olhos dela se estreitaram e o tom saiu carregado de desconfiança.
— Eu saí à tarde, e você só foi ver a Luisa à noite. Então, como poderia saber que eu saí “de repente”?
— Eu...
— A não ser… — A boca dela se torceu. — Que você ainda tenha seus homens me seguindo, mesmo depois de eu ter dito que não precisava da sua proteção!
Kris soltou o ar, encarando-a.
— Eu não sabia quanto tempo você ficaria fora, Thalassa. Quanto a ideia de você estar longe de mim outra vez... Eu não consegui lidar com isso.
Ela bufou.
— Pois eu quero exatamente o contrário, que você fique bem longe de mim. A única razão pela qual deixei você entrar foi porque a Betty insistiu, mas assim que a tempestade passar, e não importa a hora, você vai embora.
Ao terminar de falar, ela respirou pesadamente, e, inicialmente, Kris pensou que fosse raiva, mas logo percebeu que não: era medo… Algo a assustava.
— Thalassa... — Ele murmurou, levantando-se, com a preocupação evidente na voz. — Você sabe que nunca machucaria você. Então, por que está tão nervosa e tensa?
— Não estou! — Ela retrucou, mas Kris não deixou de ver o olhar dela voltar a se fixar na escada.
— Ótimo. — Betty sorriu, satisfeita, e se virou para Kris. — Vou preparar algo para você comer depois do banho.
Thalassa girou nos calcanhares e começou a subir as escadas, e Kris, compreendendo que devia segui-la, a acompanhou em silêncio, ainda tremendo. Quando chegaram ao patamar, ele percebeu que ela ficou ainda mais rígida, lançando um olhar nervoso para uma porta específica antes de desviar rapidamente.
Isso o fez franzir a testa, mas ele preferiu permanecer em silêncio até chegarem à outra porta, quando ela a abriu e disse com frieza:
— Você pode tomar banho aqui. Este é o quarto do Zeke, então deve ter toalhas limpas, e, quando terminar, pegue algo no armário.
Suspirando, Kris entrou e fechou a porta atrás de si.
O quarto, exatamente como ele imaginava, era minimalista, com paredes bege e quase sem decoração, e ele se questionou sobre o que Zeke diria se soubesse que estava usando sua casa…
Logo, despindo o restante das roupas, foi para o banheiro, onde a água quente relaxou seus músculos rígidos, e, quando terminou, percebeu que os calafrios haviam passado. Depois de se secar, vestiu, com relutância, uma calça e uma camisa de Zeke, que, felizmente, lhe serviram bem o bastante.
Enquanto atravessava o corredor de volta para descer, parou em frente à porta onde Thalassa tinha ficado tensa.
“Por que ela tinha ficado tão nervosa ao passar por ali?”
Nesse momento, Kris ouviu um som, e embora jurasse ser uma risada baixa, não teve certeza, já que a tempestade continuava rugindo lá fora.
Assim, movido pela curiosidade, foi se aproximando devagar até colocar a mão na maçaneta, mas, quando estava prestes a girá-la, a voz de Thalassa sibilou atrás dele.
— Mas que merda você pensa que está fazendo?

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