(De volta ao presente…)
Millie piscou para afastar a queimação das lágrimas e manteve os olhos em Zeke, percebendo a confusão ferida gravada em seu rosto.
Então ele se aproximou, trazendo consigo um olhar implorante.
— Millie… O que houve? — Perguntou suavemente. — Eu fiz algo para te ofender? Por que você está dizendo essas coisas? Por que está sendo tão fria comigo?
Os olhos dele vasculhavam o rosto dela, buscando qualquer indício do que estava acontecendo.
— Isso é por eu ter dito que me arrependi da nossa noite juntos? Eu pensei que tivesse explicado... Eu não quis dizer aquilo. Eu só…
No entanto, Millie o interrompeu com brusquidão.
— Não se dê ao trabalho, Zeke. Não faz diferença alguma para mim se você lamenta aquela noite ou não. — Ela se forçou a sustentar o olhar dele, embora cada palavra a dilacerasse por dentro.
Logo, a expressão de Zeke se desfez, e ele a observou tomado por uma confusão absoluta.
— Millie, eu não estou entendendo… — A voz saiu como um sussurro, e, ao dar mais um passo, ele estendeu a mão com hesitação, fazendo Millie perceber o calor que emanava quando tentou alcançar a dela. — Nós estávamos animados para sair juntos, não estávamos? Você até disse que precisava de um tempo para se arrumar para mim… — A voz se quebrou em incredulidade, e ela pôde ver os ombros dele se retesando enquanto aguardava a resposta.
Naquele instante, o coração dela se contraiu em agonia, porém ela conteve a dor, cerrando os dentes, porque sabia que Zeke não merecia ser tragado por sua confusão e que jamais suportaria vê-lo desprezá-la caso descobrisse o segredo que guardava, então decidiu que esse era o caminho mais certo para ambos.
As palavras amargaram na boca como cinza, mas, mesmo assim, ela se obrigou a soltá-las:
— Eu só aceitei sair com você porque estava confusa, Zeke. Mas, depois que você saiu, eu pensei melhor e percebi que não sinto nada por você.
Ao ouvir isso, ele balançou a cabeça devagar, com os olhos semicerrados em meio à dor e à confusão.
— Você está mentindo! — Disse firme. — Nem você acredita nessas palavras que acabou de dizer! — Respirou trêmulo. — Se não significo nada pra você, então por que acabamos juntos numa cama?
Millie deu de ombros.
— Não vou negar, Zeke, você é um homem atraente e eu sempre imaginei como seria te ter na cama. Foi por isso que te beijei e deixei você ficar comigo. Só que agora já matei a curiosidade, então acabou.
— Millie… — Ele tentou falar de novo, mas ela o cortou.
— Te ajudou a perceber? — A voz de Zeke cortou como lâmina. — Ele te "ajudou" batendo em você de novo?
Logo depois, ele avançou até ficar a poucos centímetros dela, com os olhos ardendo de raiva e proteção, e Millie não suportou aquele olhar cru de preocupação, nem o modo como parecia disposto a destruir o mundo por ela.
— Zeke, por favor… Apenas vá embora. — Ela virou o rosto, cerrando os punhos para esconder o tremor. — É melhor assim.
Porém, a expressão dele se endureceu, e ele zombou com a voz carregada de frustração e dor.
— E aí, qual é o plano? Vai voltar correndo para ele e permitir que te bata de novo? — Balançou a cabeça em incredulidade. — Está vendo, Millie? Ao não se defender e se deixar dominar por ele, você confirma que não passa de uma covarde.
— Basta! Você não sabe absolutamente nada, Zeke! — Gritou, com a voz embargada pelo choro que tentava reprimir, enquanto se encolhia abraçando o próprio corpo com força. — Você não entenderia...
— Então me ajude a entender. — Exigiu ele, com a voz baixa e tensa. — Por que você tem tanto medo daquele desgraçado, Millie? O que ele tem contra você?
Ela tentou conter a respiração ofegante, mas a angústia refletida nos olhos dele quebrou suas últimas defesas, fazendo-a soltar um soluço abafado antes de confessar:
— Porque eu sou uma assassina! Eu matei um homem, e o Francis tem uma gravação como prova!

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