Os punhos de Zeke se cerraram com tanta força que suas unhas cravaram nas palmas, e ele mal conseguiu conter a fúria.
— E foi aí que ele começou a te machucar?
Millie assentiu, com a voz quase inaudível.
— A princípio, foram apenas ofensas, reações desproporcionais por bobagens… Até que se tornaram agressões reais. Permaneci firme porque acreditava que devia algo a ele. Eu pensei... — Ela balançou a cabeça, sufocada. — Mas, com o tempo, eu não consegui mais suportar e disse que queria terminar, já que tinham se passado vários meses desde o incidente e, como ele havia apagado tudo e me ajudado, eu acreditava que estava segura. Naquela noite, porém, ele me espancou pela primeira vez e, depois disso, me mostrou o vídeo.
Diante da revelação, as narinas de Zeke se dilataram.
— Que vídeo?
Millie fungou.
— O homem que eu matei deixou o celular filmando, registrando não só suas intenções, mas também o momento em que o matei. Francis, ao entrar no quarto, encontrou o aparelho ainda ligado e salvou o vídeo em seu próprio telefone. Mais tarde, me mostrou a gravação e disse que, se eu o deixasse ou tentasse denunciá-lo, entregaria tudo às autoridades. O terror tomou conta de mim, e o medo da prisão me impediu de reagir.
— Millie, você estava apenas se defendendo… — Apontou Zeke, estendendo a mão para ela, mas Millie se encolheu, abraçando os próprios braços.
— Você não entende, Zeke. Pelo estado de fraqueza e desorientação em que eu estava depois que aquele homem me injetou, ao assistir ao vídeo não parecia legítima defesa, mas sim que eu consenti com tudo o que ele queria fazer e depois me aproveitei para matá-lo, como se tivesse planejado tudo.
Os olhos dela, marejados e desesperados, se ergueram para ele.
— Mas eu juro que não planejei. Eu só estava tentando defender a minha dignidade. Eu juro!
A voz de Zeke se suavizou, carregada de emoção crua.
— É claro que não planejou. Eu acredito em você, Millie.
Ignorando a tentativa dela de se afastar, ele a atraiu para os braços e a segurou com firmeza, sentindo os tremores do corpo dela e o peso da dor que trazia dentro de si, e isso incendiou o peito dele de raiva.
— Eu sou uma covarde. — Ela soluçou contra o peito dele. — Em vez de buscar ajuda e relatar tudo à polícia, eu permaneci ao lado de Francis, deixando que ele me usasse e me ferisse sempre que desejasse.

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