Ponto de vista de Avery
— Eu sei o que você está fazendo. — Gideon disse, fechando a mão nos meus cabelos.
Arfei quando ele me puxou de volta para os pés.
— O-o quê? — Estremeci.
— Eu já disse, esses truques não funcionam comigo. — Gideon falou com firmeza, soltando-me.
Truques? Ele achava... Que eu estava tentando seduzi-lo?
Lancei-lhe um olhar furioso pela presunção, mesmo corando ao imaginar o que ele pensou que eu estava tentando fazer.
— Eu deixei a caneta cair. — Falei, de forma incisiva.
A sobrancelha de Gideon se arqueou, sua expressão cheia de descrença.
Meu coração doeu ao ver a desconfiança rastejar por seu rosto. Ser tão mal compreendida por Gideon machucava muito mais do que deveria àquela altura.
Ele tinha sido criado em uma atmosfera de expectativas intensas, onde nem mesmo os laços familiares significavam algo quando o poder estava em jogo. Gideon via fantasmas e inimigos em todos os lugares, e sempre veria.
Fechei os olhos e contei até dez, tentando liberar minha raiva dele.
Ele era a criatura que seus pais tinham feito, distorcida por seu sangue demoníaco e pelas mortes de seus amigos de infância. Se não conseguia reconhecer sinceridade e autenticidade quando as via, aquilo não era culpa minha.
Em outro momento, essa percepção teria me feito querer lutar para provar que ele estava errado, para mostrar que eu era diferente, que poderia amá-lo de um jeito diferente.
Depois das últimas vinte e quatro horas, apenas aceitei em silêncio.
Assinei o documento.
Aquilo significava trancar meu coração e vestir a máscara de Luna pela eternidade. Ou, ao menos, até o Rei dos Renegados ser capturado e minha mãe ser resgatada.
Assim que ela estivesse segura, eu poderia partir para o mundo humano mais uma vez. Poderíamos encontrar um lugar tranquilo para construir nossas vidas juntas. Ter a relação de mãe e filha que nunca tínhamos conseguido ter.
Desde que fui desmamada, meu pai me manteve afastada dela. Aqueles homens achavam que podiam ditar relacionamentos como bem entendessem. Como se emoções seguissem a lógica.
Eu sabia que não.
Eu sempre amaria minha mãe. Haveria uma parte de mim que sempre amaria Gideon.
Essas eram partes de mim que tranquei bem fundo dentro de mim mesma, para que não pudessem mais me machucar.
Quando terminei minha assinatura, Gideon puxou os papéis, com uma expressão satisfeita no rosto. Doeu pensar que ele estava tão entusiasmado em autorizar um documento que nos prendia para sempre aos nossos papéis rígidos.
— Apesar de seus recentes deslizes de julgamento, confio que conseguiremos retomar nossa relação de trabalho produtiva. — Gideon disse com um aceno firme enquanto acrescentava seu próprio rabisco abaixo do meu no contrato.
Relação de trabalho. Era isso que mais o agradava.
Então ele realmente não tinha nenhum interesse romântico por mim, afinal. Aquela constatação foi uma punhalada no meu coração e nas minhas esperanças agora mortas.
Eu tinha esperado que expor Dierdra como sua falsa companheira abrisse uma fresta na porta do coração dele, ainda que pequena. Em vez disso, parecia que ele nem tinha reconhecido a traição dela.
Ele pretendia ignorá-la para sempre?
Havia ilusões demais em jogo. Eu era esposa e Luna, mas não conseguia tocar seu coração. Dierdra era sua falsa companheira, e ainda assim ele a abraçava de bom grado.
Ter sido quebrado tão jovem significava que Gideon já não reconhecia a verdade quando ela estava bem diante dele?
O pensamento era indescritivelmente triste.
Eu também tinha sentido traição desde criança. Todos que disseram se importar comigo tinham ido embora. De um jeito completamente distorcido, Gideon estava se mostrando mais constante do que qualquer uma das pessoas que deveriam ter estado ao meu lado.

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