Essas pessoas jamais questionariam as ordens da Luna em um fórum público, mas exporiam suas dúvidas em particular, para vizinhos ou amigos. A fofoca se espalhava rapidamente em uma alcateia unida, e seus olhares silenciosos e julgamentos sussurrados eram palpáveis, se você soubesse o que procurar.
O merceeiro tinha terminado de registrar as compras do cliente, e eu havia voltado minha atenção ao trabalho, quando um par de botas parou na beirada do meu campo de visão.
— Parece trabalho pesado. — O homem disse, lançando os olhos para mim, enquanto mantinha o rosto virado para longe dos meus guardas.
Sua voz era baixa, para não atrair a atenção deles.
Não respondi nada. Eu estava proibida de falar, mas estava curiosa sobre o que aquele homem tinha a dizer, então virei o corpo ligeiramente em sua direção para indicar que estava ouvindo.
— Vê alguém trabalhar tanto assim, dia e noite, e a gente começa a se perguntar se as pessoas dando ordens conseguiriam fazer sequer metade do que você faz. — Ele continuou casualmente, esfregando uma sobrancelha e fingindo olhar uma prateleira próxima.
Eu ousaria responder? Talvez fosse alguém que Dierdra tinha enviado como teste. Eu não podia arriscar.
De repente, uma fruta apareceu sobre o palete em que eu trabalhava, e a encarei surpresa. O homem a tinha colocado ali tão rápido que eu nem o vi se mover.
— Você está magra feito um graveto. Só uma pessoa cruel colocaria você para passar por isso, ainda por cima ferida. Pegue isso, e não se surpreenda se alguns outros tentarem fazer o mesmo.
Guardei a fruta no bolso rapidamente, tentando garantir que os guardas não vissem o movimento furtivo, e ergui os olhos para o morador amigável.
— Obrigada. — Falei, minha voz áspera pelo desuso.
— O problema de fazer as pessoas realizarem esse tipo de trabalho é que, no começo, a intenção é humilhar, mas isso também deixa você mais forte. Depois de vê-la na rua todos os dias, sabendo o quanto trabalha duro, o povo acaba percebendo que aquilo que vê e aquilo que ouve não combinam. — Os olhos do homem brilharam para mim enquanto ele fingia procurar o recibo na bolsa.

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