O vento atravessou o vidro.
Nesta estação de início de verão, sentiu-se um frio que penetrava até os ossos.
Ela havia acabado de sentir o primeiro movimento do bebê, mas já precisava encarar a despedida dessa pequena vida.
O destino entre eles sempre fora raso assim.
“Filho, já são duas vidas e mesmo assim não conseguimos ser mãe e filho. Da próxima vez, não venha mais me procurar, vá encontrar outra pessoa para ser sua mãe. Você terá uma família muito feliz, a mamãe só pode te acompanhar até aqui.”
Estefânia sentiu uma tristeza amarga, vontade de chorar.
Por duas vidas, ela e o bebê não conseguiram se encontrar de verdade.
O destino não teve pena dela ao permitir que reencarnasse; provavelmente, ela havia cometido algum erro grave e fora enviada à Terra para sofrer.
A chuva, parecia também fazer um minuto de silêncio por esse laço inacabado, pingando devagar...
……
Flávia ouviu o anúncio no sistema de som do parque.
Como muitos outros turistas que subiram a montanha para fazer pedidos, preocupava-se com aqueles que estavam presos nos teleféricos, parados no ar.
“Ficar parado desse jeito não é solução nenhuma, ainda mais com esse vento e chuva. E se acontecer alguma coisa, o que vamos fazer?”
“Nem me fale, esse bondinho do Pico do Sol Nascente já tem muitos anos. Ouvi dizer que nunca fizeram manutenção.”
“E agora? Minha família ainda está lá em cima. O que está acontecendo com o parque, por que ainda não consertaram isso? Se não der para arrumar, que pelo menos tragam eles de volta ao chão. Ficar balançando no ar é perigoso demais...”
Os turistas falavam todos ao mesmo tempo.
Flávia sentia-se insegura.
Andava de um lado para o outro, inquieta.
“Flávia.”
Leonel aproximou-se, segurando um guarda-chuva.
Ao vê-lo, Flávia ficou ainda mais ansiosa. “Dr. Carneiro, o Sr. Rodrigues e a senhorita subiram juntos no bondinho até o topo da montanha. Agora estão presos no ar. Olhe só esse vento, e a chuva não para. Estou muito preocupada com eles...”
Leonel levantou os olhos, olhando para o teleférico encoberto pela neblina e pela chuva.
Apenas alguns bondinhos próximos podiam ser vistos com clareza.
Os outros pareciam ter simplesmente desaparecido.
Seu olhar era profundo, preocupado. “Já ligaram para o resgate? Isso é muito perigoso.”
“Ouvi dizer que o pessoal do parque está tentando consertar, mas com os bondinhos balançando no ar, mesmo que o resgate chegue, não tem como ajudar.”
Flávia esfregava as mãos.
Não sabia o que fazer.
Leonel pegou o telefone e tentou ligar para o 193.


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