CALEB
Eu nunca imaginei que fosse sentir tanto medo na vida.
O médico saiu da sala, a roupa ainda manchada do sangue que escorreu da Pamela, o rosto sério, e eu já sabia que não vinha coisa boa.
— Senhor Belmont — ele começou, e o jeito como ele respirou antes de continuar me deixou com o coração na garganta —, a situação é delicada.
— O que aconteceu? Ela tá bem? — interrompi.
Ele fez um leve aceno, calmo demais pro tamanho do pânico que eu sentia.
— A bolsa dela rompeu, mas o colo do útero não dilatou o suficiente. Precisamos fazer uma cesariana de emergência. Agora.
Meu corpo inteiro ficou gelado.
— Agora? — repeti, como se ele tivesse dito uma loucura.
— Sim. Se não fizermos, os bebês e ela podem correr risco.
As palavras ficaram rodando na minha cabeça como uma sirene.
Risco. Emergência. Agora.
Tudo junto, embaralhado, sem sentido.
— Pelo amor de Deus, doutor — minha voz saiu arranhada, desesperada —, faz o que for preciso. Mas cuida dela, por favor. Cuida da Pamela.
Ele assentiu, firme.
— Vamos fazer o melhor. Eu mesmo vou realizar a cirurgia. Ela está sedada, então não vai sentir dor.
Sedada.
Essa palavra me acertou no peito. Eu não queria ela inconsciente, eu queria ela comigo, reclamando, apertando minha mão, me chamando de exagerado. Qualquer coisa, menos aquilo.
— Eu posso… eu posso ficar perto? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Não dessa vez, senhor Belmont. É uma cirurgia delicada.
Assenti, sem ter força pra discutir.
Vi ele se afastar, entrar na sala novamente, e a porta fechar.
Fiquei ali, parado no corredor, com as mãos tremendo, tentando entender o que tava acontecendo.
Cesárea de emergência.
Ela só tem vinte e nove semanas.
Meus filhos vão nascer agora.
A ficha não caía.
Eu só sentia o chão sumir debaixo dos meus pés.
Minha mãe apareceu do nada, o rosto tenso, o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse saído de casa correndo.
— Caleb? O que foi?
Engoli em seco.
— Eles vão fazer uma cesariana. Agora.
— Mas… agora? Ela não tá com sete meses? — a voz dela saiu fraca, quase um sussurro.
Assenti.
— O médico disse que é arriscado esperar.
Ela se aproximou, colocou as mãos nos meus ombros.
— Vai dar certo, meu filho. Vai dar tudo certo.
Mas ela tremia tanto quanto eu.
E eu… eu não sabia o que fazer.
Ficar parado era insuportável.
Então comecei a andar de um lado pro outro, mexendo no celular sem rumo. Até que pensei em uma coisa óbvia: Flávia.
A madrasta da Pamela.
Por mais que as duas não fossem tão próximas, ela tinha direito de saber.
Procurei o número dela e disquei, a mão suando.
Ela atendeu na segunda chamada.
— Caleb? — a voz dela soava sonolenta, meio confusa. — Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo, tentando parecer calmo, mas minha voz falhou logo na primeira palavra.
— Flávia… é sobre a Pamela.
— O que tem ela? — o tom dela mudou na hora, alarmado.
— Ela entrou em trabalho de parto — falei, sem conseguir disfarçar o desespero. — A bolsa estourou, e o médico disse que precisa fazer uma cesariana agora.
Houve um silêncio do outro lado da linha, desses que duram segundos, mas parecem horas.
Depois, ela soltou um suspiro trêmulo.
— Meu Deus… ela tá bem?
— Tá… quer dizer, tá sendo cuidada. Mas é cedo demais, Flávia. Vinte e nove semanas…
Ela ficou muda por um instante, e depois respondeu firme:
— Eu tô indo pro hospital agora.
— Você não precisa…
— Preciso sim. É minha menina. — A voz dela saiu embargada. — Me manda o endereço.
Enviei na hora, sem pensar.
Quando desliguei, MInha mãe me olhou com uma sobrancelha levantada.
— Ligou pra Flávia?
— Ela merece saber — respondi. — É mãe da Pamela também.
Minha mãe— Fez certo.
E então o tempo parou.
Literalmente.
Os minutos viraram uma eternidade.
Eu sentava, levantava, andava, olhava pra porta da sala cirúrgica, sentava de novo.
O som do relógio na parede parecia zombar de mim.
A cada tic-tac, meu peito apertava mais.
Até que, depois de uns trinta minutos — que pareceram dez horas —, ouvi vozes no corredor.
Quando olhei, Flávia vinha caminhando rápido, com o cabelo solto, ainda com o rosto marcado de travesseiro.
E atrás dela… Valentina.
A meia-irmã da Pamela.
Por um segundo, achei que tava imaginando.
Mas não. Era ela mesmo.
As duas vieram direto na minha direção.
— Onde ela tá? — Flávia perguntou, ofegante.
— Lá dentro. Ainda estão operando.
Ela colocou as mãos na boca, os olhos marejados.
— Meu Deus…
Valentina, que normalmente tinha aquele ar debochado, tava séria. Muito séria.
— Ela vai ficar bem, né? — perguntou, num tom baixo, que eu nunca tinha ouvido dela antes.
Assenti, tentando parecer confiante.
— Vai. O médico é ótimo.
Mas por dentro, eu tava despencando.
Flávia encostou na parede, respirando fundo.

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