Caleb
Saímos do prédio já tarde, depois de um dia cheio. O ar noturno de São Paulo estava carregado de buzinas e cheiros misturados: gasolina, fumaça e aquele aroma distante de comida de rua. Eu precisava disso — um pouco de distração. Renato insistiu para irmos beber em um bar que ele conhecia perto do Itaim.
— Vamos comemorar o meu retorno, Caleb. — Ele sorriu, ajeitando o paletó antes de entrar no carro. — E você vai me contar tudo que perdi enquanto estive fora.
Concordei. Era o mínimo. Ele era um dos sócios mais antigos, um homem inteligente e astuto, que sabia tudo sobre o mercado e tinha sempre uma carta na manga.
Chegamos em um bar sofisticado, luz baixa, mesas de madeira escura e garrafas enfileiradas atrás do balcão. O lugar estava cheio, mas ainda tinha aquela aura intimista que eu gostava. Pedimos uísque logo de cara. Renato brindou levantando o copo:
— Ao meu retorno, ao sucesso da viagem e… — ele me olhou com aquele ar de quem sempre sabe mais do que aparenta — ao fato de você estar com um semblante mais leve do que quando saí.
Sorri de lado, tomando um gole. — Pois é, muita coisa mudou nesses meses.
Ele arqueou a sobrancelha. — Vai me contar ou vou ter que arrancar com perguntas?
Aproveitei a deixa. Estava guardando aquilo para contar em algum momento, e Renato era próximo o bastante para saber.
— Eu me casei.
Ele tossiu com o uísque, quase engasgando. — Você o quê?
Ri, balançando a cabeça. — Me casei, Renato.
Ele arregalou os olhos, depois se recostou na cadeira, incrédulo. — Não acredito… Caleb Monteiro casado. Isso é novidade demais. Mas… por quê?
Suspirei. Essa era a parte complicada. — Foi um acordo de família.
— Acordo de família? — Ele riu alto. — Cara, estamos no século XXI, não no feudalismo.
Dei de ombros. — Eu também achei loucura no começo. O pai dela era amigo do meu pai. Eles tinham esse trato de um cuidar do outro. Quando meu pai morreu, essa obrigação caiu em cima de mim.
Renato apoiou o queixo na mão. — Tá, mas isso ainda não explica por que você aceitou. Você nunca foi do tipo que se deixa mandar.
Ri, lembrando do quanto eu mesmo lutei contra isso. — Eu também não queria. Bati o pé, me recusei… mas no fim, aceitei. E, olha, me dei bem.
Ele estreitou os olhos, curioso. — Agora você me deixou intrigado. Quem é a tal esposa misteriosa?
Bebi mais um gole antes de responder, aproveitando o suspense. — Você não vai acreditar… me casei com a Pamela.
Renato ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse processando. — Pamela? — repetiu, surpreso. — Sua ex-secretária Pamela?
Assenti, com um sorriso meio divertido. — Exatamente.

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