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A Segunda Vida da Senhora Laís romance Capítulo 29

Felipe desligou a ligação, com uma clara hesitação nos olhos ao encarar Laís:

— Laís...

Laís foi incisiva, sua expressão retornando instantaneamente ao gelo rígido de antes:

— Se foi dado a mim, então não existe essa de compartilhar com os outros. E outra, uma família com uma herança secular como a família Andrade não seria capaz de comprar uma simples raiz de ginseng vermelho de alta qualidade? É óbvio que a Sofia está apenas...

Laís conteve os xingamentos a Sofia e calou-se.

Felipe, num instinto, saiu em defesa da jovem:

— Não é que eles não possam comprar, é que a Sofia prefere não incomodar a família Andrade.

— Você sabe como a família deles é gigante e complexa. Quando o Jorge se casou com a Sofia, resolveram construir sua própria independência morando fora do país. Não havia necessidade nenhuma dela recorrer aos favores deles por causa de um mero ginseng.

Laís não suportou ouvir mais aquilo e soltou uma risada sarcástica:

— Felipe, será que as suas prioridades não estão um pouco confusas? A Sofia se casou com um Andrade, não com um Vasconcelos. Na realidade dela, o forasteiro é você.

— ...

A língua de Felipe parecia ter sido cortada, calando a sua boca.

O clima no quarto era insustentável.

Laís virou-se e deitou na cama, fechando os olhos, as suas vontades de continuar conversando evaporaram em definitivo.

Felipe permaneceu parado, enquanto o seu celular soava incessantemente.

A sonolenta Laís escutava levemente as digitações na tela daquele telefone, mergulhada num mar de fadiga tão excruciante, ela deixou que o sono fizesse seu papel tranquilamente.

Ao acordar, já era madrugada.

Dona Zélia batia na sua porta, a pequena Aline lacrimejando em seu peito.

Guiada pelo choro, o corpo de Laís impulsionou-se mecanicamente do lençol para segurar a pequena.

Um escaneamento repentino invadiu os olhos da mãe pela divisão, buscando Felipe sem o ver, até que as pupilas ganharam de novo o manto cinzento:

E ficava dolorosamente escancarado que a predileção de Felipe não passava por ela.

Nas remanescentes horas noturnas, Laís deitou-se inútil sob os assombros mentais da insônia.

Ela serrava os olhos e infinitas memórias calorosas que compartilhara com Felipe faziam rodopios na escuridão.

Recordou de quando se esbarraram pelas primeiras vezes, na mesma faculdade.

Enquanto ela não passava de uma universitária, ele construía a sua glória corporativa nos altos escalões da burguesia de Marbella.

Num ato jornalístico pela faculdade universitária, propôs compor uma resenha perante sua honra, combinando uma aproximação solene no recinto acadêmico.

Fora o despontar da aurora na primavera em que as correntes da luz solar vazavam com destreza, pintando em glória o perfil daquele homem.

Acompanhado pela fineza dos trajes a rigor sombrios e enaltecido pelos ombros eretos e feições esculpidas como a rocha mais fina, o timbre suave mas ríspido ditava calmamente as adversidades do império da perseverança.

Laís repousava como a espectadora oposta, a mente preenchida pelos gracejos do cabelo miúdo, emoldurada em um simplório conjunto branco de sarja e denims claros, atenta a cada suspiro seu.

O vocabulário daquele homem gotejava a feitiçaria inata que adormecia os poros vitais e fez os braços agarrados à caderneta estremecerem desreguladamente, tal e qual o bater acelarado da caixa torácica.

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