Cinquenta milhões para comprar o divórcio, para arrancar Aline da família Vasconcelos... Se não tivesse ouvido com os próprios ouvidos, Laís acharia impossível viver numa situação dessas no século vinte e um.
A filha não passava de um objeto para eles?
Nem se tratava de uma linhagem imperial a ser preservada!
Ela riu de tanta raiva. O corpo de Laís tremia e o aperto sufocante que tomava conta de seu coração não permitia que nenhuma palavra saísse.
Porém, quem não conseguiu suportar a situação foi Carla, que, com uma espátula em mãos, espionava tudo do outro lado da porta.
Quando escutou a confusão, Carla estava cozinhando. Sua intenção era preparar algo simples para que pudessem comer juntas.
Ao ouvir a movimentação frenética de passos do lado de fora, desconfiou que havia algo errado e, segurando a espátula, correu até a porta da casa de Laís.
A porta estava apenas encostada. Ela não invadiu imediatamente, mas conseguiu escutar nitidamente a conversa.
Sem aguentar mais, Carla entrou feito um furacão e, brandindo a espátula com sementes de pimenta pelo ar, atacou na direção de Patrícia:
— Sua velha perversa e sem coração! Como pode existir no mundo uma avó biológica tão maluca quanto você!
— Querendo ou não, o seu sangue também corre nas veias de Aline! Desde que a menina nasceu, você se virou e foi embora depois de olhar pra ela uma vez só! E agora tem a cara de pau de tentar comprar o rompimento de laços familiares!
— Não é à toa que a sua família é tão escassa de herdeiros. O problema é ter uma praga de mulher como você causando estrago! Se você tem tanta coragem, repita o que disse há pouco que eu vou gravar e jogar na internet! Assim, todos vão conhecer essa sua cara machista e antiquada!
...
Carla sacudia o corpo de tanto ódio. Balançando a espátula, intercalava xingamentos com investidas na direção da megera.
Acostumada à subserviência, Patrícia ficou branca feito cera. Cobrindo a cabeça, começou a correr e a se esconder, mas, por descuido, as sementes de pimenta voaram da espátula e entraram em seus olhos.
— Aaaaa...
Como se seus olhos estivessem ardendo em chamas, Patrícia soltou um grito desesperado pela queimação insuportável.
Com as mãos no rosto lacrimejante, incapaz de revidar, ela juntou a sua turma e correu envergonhada, cobrindo a cabeça até fugir da casa de Laís.
Vendo aquela fuga deprimente, Laís e Carla se entreolharam e sorriram, tocando as mãos com entusiasmo, e caíram numa longa crise de risos.
Carla assentiu de forma veemente.
— Isso mesmo, agora você tem aliados fortes. Não sinta medo, não se acovarde, encare eles de frente até o fim!
Carla se encheu de orgulho de si mesma naquele dia e bateu com a mão no peito:
— Se fosse antes, eu podia até estar morrendo de raiva, mas nunca ia ter essa audácia para te defender como fiz hoje!
— Mas agora, sabendo dos poderosos contatos que você tem, sinto um encorajamento gigantesco em mim.
— Laís, passei todos esses anos ao seu lado, e até que enfim estou vendo você se libertar desse buraco!
Enquanto falava, os olhos de Carla marejavam. Ela abraçou Laís como se fosse um urso carinhoso.
Logo em seguida, jogou o braço por cima do ombro de Laís e a arrastou até o seu apartamento, ali na frente:
— Vamos, vem provar a Caçarola Picante insana que eu preparei para o almoço...

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