Encarando os olhos frios da esposa, Felipe se recusava a acreditar naquelas palavras. Para ele, tudo não passava de um exagero dito no calor da raiva.
— Tudo bem, não fique irritada. O Jorge já voltou para o país, então eu não preciso mais me preocupar em dar assistência para a Sofia. Terei muito tempo para ficar com você.
Ele tentou abrandar o tom para convencê-la.
O problema era que a Laís de agora já não era a mulher que se deixava acalmar com palavras gentis.
Só de lembrar que ele passara quase todo o período da gravidez dela ao lado de outra mulher, do desprezo com que a própria filha fora tratada desde o nascimento, de como ele se ausentara nos momentos mais cruciais para as duas, apenas para cobrir outra mãe e outro bebê de atenção e mimos...
O coração de Laís havia esfriado de vez.
Era inaceitável continuar ao lado de um homem que colocava as necessidades de qualquer outra mulher acima das dela.
Mais revoltante ainda era o fato de a bebê que ela arriscara a vida para dar à luz não passar de algo insignificante na visão daquele sujeito.
Sua filha era sua linha de limite. E cada vez que revisitava as injustiças suportadas desde aquele parto, o ódio nascia em seu peito, incansável.
Olhando para o rosto sem expressão de Laís, Felipe continuava sem entender. Como o relacionamento que ia tão bem havia chegado àquele ponto tão desgastado?
Ela jamais fizera cena antes, nem nunca tinha dado tanto trabalho para voltar ao normal. Ele estava frustrado, e ao mesmo tempo sem saber o que fazer para trazê-la de volta à mulher que era antes.
Trrrrim...
O toque estridente do celular quebrou a tensão asfixiante do quarto.
A tela iluminou-se na penumbra. O identificador dizia apenas um nome: Sofia.
Com o cenho franzido, aborrecido, Felipe desligou a chamada.
Um segundo depois, no entanto, o aparelho voltou a tocar. Ele o desligou novamente, mas a resposta foi imediata.
Observando a insistência na tela, um sorriso sarcástico desenhou-se na boca de Laís:
— É melhor você atender. Vai que o casal teve uma briga e ela está lá desesperada, pronta para pular no mar. Se você não atender, pode acabar em tragédia.
— O marido dela já voltou, mas fica óbvio que ela continua precisando da preocupação constante e detalhista do "irmãozão" dela.
Aquela desculpa de amizade de infância era o disfarce perfeito.
O afeto de um "irmão" cuidando de uma "irmã" era justificativa inquestionável para os outros.
Se não fosse, como Patrícia teria abraçado a causa com tanta facilidade, ficando abertamente do lado de Sofia?
Ao que parecia, Laís era a única enojada com aquela situação. Para o resto do mundo, aquilo era a coisa mais natural.
Felipe olhou para a tela acendendo e apagando. Uma tempestade de emoções passava por seus olhos.
Por fim, levantou-se, deu alguns passos e atendeu a ligação:
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