O termo "mulher do dono" encheu Laís de ódio:
— Me solta, Felipe! Não me obrigue a agir de modo mais cruel!
Felipe a observava, algemando os punhos dela:
— Você já não foi cruel o bastante nestes últimos dias? Será que pode ficar quieta, para variar?
A voz magnética e melodiosa ressoou no ouvido de Laís, provocando arrepios por todo o seu corpo. Com um olhar ameaçador, ela advertiu:
— Eu te dei a chance de recuar, Felipe, mas você não a valorizou —
Felipe ficou confuso:
— O quê?
O calcanhar de Laís pisou impiedosamente no pé de Felipe. A dor lancinante causada pelo salto agulha fê-lo soltá-la por puro instinto.
— Crash! —
No segundo seguinte, Laís derrubou sem dó o Yulong de jade, que Felipe havia pagado uma fortuna para ter no seu escritório.
O ornamento de feng shui que Felipe sempre reverenciara chocou-se rudemente contra o piso, rachando por completo.
— Laís!
Felipe arregalou os olhos, a sua fúria indo aos céus.
Com o rosto inexpressivo e sem lhe dar tempo de reagir, ela arrancou com fúria a tabela pendurada na parede, rasgando-a em pedaços miúdos e pisoteando os restos.
O rosto de Felipe assumiu um tom doentio de verde.
Aquela tabela havia sido elaborada com esmero por profissionais, a pedido dele, para ser o cronograma ideal de gestão do trabalho do departamento de design.
A tabela detalhava de forma minuciosa os pontos de checagem, a descrição das tarefas e os turnos de cada designer. Era tão exata que, além do intervalo de meia hora diária para o almoço, até as idas ao banheiro eram contabilizadas em segundos.
Em sua perspectiva, aquele era um instrumento de extrema importância para maximizar a produtividade e otimizar os cronogramas de serviço.
Todavia, aquela tabela era um instrumento de suplício para cada membro da equipe, mas, sobretudo, para Laís... Durante cinco longos anos, movida pelo amor que sentia por ele, ela aturara aquele martírio em silêncio.
Junto com as três pessoas de sua equipe, aquela mesma planilha os convertera nos mais severos ascetas do Grupo Vasconcelos.
Naquele momento, a planilha que Laís sempre sonhara em extinguir, ao lado de todo o "domínio" que Felipe exercia sobre ela, foi reduzida a um monte de papel rasgado.
Com um estilhaçar ensurdecedor, a divisória majestosa de vidro transformou-se em miríades de pedacinhos brilhantes perante o espanto da multidão.
Todos os presentes silenciaram por medo de respirar.
Afinal, as labaredas da fúria descontrolada de Laís eram deveras estonteantes!
A mente de Felipe entrou em pane, o tamborilar brutal nas têmporas turvou a sua vista.
— Laís!
Instintivamente, Felipe estendeu a mão para agarrá-la, mas a faca impiedosa que ela portava desferiu um rasgo profundo no pulso dele.
Um latejar excruciante percorreu o braço e, no exato instante em que o sangue jorrou, Felipe foi acometido por um estado paralisante de choque.
— Eu já suportei demais nestes cinco anos. Já me fartei da sua empáfia, cansei da sua exploração tirânica, e estou farta do seu descaso por todos os meus sacrifícios. E, sobretudo, não tolerarei mais você usar a desculpa fútil do bem maior para me jogar na fogueira em prol do seu Grupo Vasconcelos de novo e de novo!
A voz de Laís soava abafada, porém as sílabas gotejavam melancolia e desespero, e reverberaram nos ouvidos de cada pessoa na sala.
Como se fulminado por um raio, Felipe enrijeceu as pernas:
— Eu... eu fui tão monstruoso assim?

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