— Jorge, você é tão lindo.
Laís não conteve o suspiro de encanto.
Em toda a sua vida, nunca tinha despejado um elogio tão despudorado na cara de um homem.
Naquele instante, ela compreendeu porque tantas garotas ficavam fascinadas e obsessivas pela beleza de celebridades.
Ser tão atraente já era o melhor dos atributos; ele nem precisava agir, apenas parar quieto em frente a uma mulher para que ela perdesse a cabeça.
— Que nada. Eu sou normal.
Jorge deu um sorriso tímido. Ao ouvir isso, não resistiu e abriu os braços longos, puxando facilmente a cintura fina dela e perguntando com a voz rouca:
— Já se cansou de olhar?
Havia um toque de pudor juvenil em seu sorriso, a inocência adorável de um universitário; entretanto, seus músculos definidos e aquele forte cheiro hormonal denotavam o ímpeto inegável de um homem feito.
Essas duas essências misturavam-se na mesma pessoa com um brilho contrastante, sem que houvesse a mínima desarmonia.
Sentindo o sussurro rouco bater, Laís percebeu seu corpo, outrora rígido, aos poucos se dissolvendo como água.
Uma quentura tomou seu peito, fazendo-a perder o fôlego e, mais uma vez, quase anular qualquer vestígio de razão.
Apressando-se ao constatar que sua mente voltava a vacilar, Laís desviou o rosto rapidamente, sem coragem de enfrentar de novo aquele fogo em seus olhos.
— Jorge, para com isso. Me solte.
— Tem certeza? Bem... tudo bem.
Ao responder, ele gargalhou baixo e o tremor em seu peito se transmitiu vivamente para ela.
Girou ligeiramente a cabeça, exalando todo o ar quente em direção ao pescoço da mulher.
Seus lábios moveram-se numa aproximação infinita aos lábios de Laís.
O coração dela errou algumas batidas, forçando-a a fechar os olhos de reflexo e imobilizando-se dura como um pedaço de madeira.
Mas, no instante seguinte, Jorge recuou subitamente e cochichou com delicadeza:
Laís permaneceu paralisada por não menos de um minuto, aguardando que os baques cardíacos se estabilizassem e as emoções esfriassem. Ajeitou as mechas de cabelo sobre as orelhas, abriu a porta de modo relutante e partiu para descer as escadas.
-
Na cozinha do primeiro andar, Jorge já envergava o avental. Postado à frente da ilha, mantinha uma afiada faca culinária em riste, seccionando metodicamente os ingredientes espalhados sobre a tábua de corte.
O homem continuava vestindo a regata branca, deixando descobertos os antebraços delineados de modo invejável.
Os raios solares que penetravam a vidraça o inundavam, forjando a impressão de um leve manto dourado a protegê-lo.
Desde a estada partilhada por ambos, os encargos das três refeições diárias repousavam integralmente sobre os ombros de Jorge.
A omissão não residia numa eventual preguiça de Laís, porém no fato de que o rapaz se obstinava em vetar o seu ingresso às panelas.
Inicialmente, aquilo despertava um leve desprazer; mas os dias transcorridos lhe incutiram um conformismo pacato, convertendo-se numa aceitação doce e bem-vinda.
Ora, raríssimas mulheres nascem com pendor instintivo de se sacrificar à boca do fogão. Se dadas as circunstâncias adequadas, toda alma desejaria render-se aos mimos daqueles cuidados fervorosos.
O labor concentrado de Jorge pela cozinha dissipava por completo quaisquer ares que restassem de dândi altivo e nobre. Ao contrário, o momento emoldurava seu espírito num sereno clima doméstico e cotidiano.

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