POV - CELINE
A trança escapou dos meus dedos pela terceira vez.
Soltei um suspiro baixo, tentando ignorar a sensação estranha que me acompanhava desde que acordei.
Como se algo estivesse… fora do lugar.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento, e recomecei a trançar o cabelo com mais firmeza. Quando terminei, peguei o moletom vermelho e o vesti sem pensar duas vezes.
Não combinava com o uniforme da loja.
Nunca combinava...
Mas era a última coisa que minha avó Lia tinha me dado.
E isso bastava.
Por um instante, meus dedos apertaram o tecido.
Dois anos.
Ainda doía.
— Anda logo, Celine — murmurei para mim mesma, pegando a bolsa e saindo de casa.
O ar da manhã estava mais frio do que o normal.
Ou talvez fosse só impressão.
***
A loja ainda estava vazia quando cheguei.
Acendi as luzes, e o silêncio me envolveu por alguns segundos — confortável, familiar. Comecei a organizar os manequins com os looks da semana, ajustando tecidos, alinhando cores, criando combinações.
Era automático.
Seguro.
Ali, tudo fazia sentido.
— Como sempre, você salva essa vitrine. Sorri antes mesmo de me virar.
— Bom dia pra você também, Annabell.
Ela entrou já pegando o celular, tirando fotos, mudando ângulos, completamente no modo “dona da loja”. Diferente de mim, ela parecia sempre ligada em mil coisas ao mesmo tempo.
Viva.
— Isso aqui vai vender rápido — comentou, animada.
— Tomara.
O dia passou como sempre.
Clientes entrando e saindo, conversas rápidas, risadas ocasionais. Por algumas horas, consegui esquecer aquela sensação estranha.
Até que —
Um arrepio percorreu minha nuca.
Parei no meio de uma dobra de roupa.
Olhei ao redor.
Nada.
A loja estava normal.
Mesmo assim… Algo não estava.
— Ei — Annabell chamou, me tirando do transe. — Terra chamando Celine?
Pisquei algumas vezes.
— Desculpa… só me distraí, respondi.
Ela me analisou por um segundo a mais do que o normal.
— Você está estranha hoje.
Forcei um sorriso.
— Estou bem.
Ela não pareceu convencida.
Mas deixou passar.
***
— A gente devia sair hoje — disse ela mais tarde, encostada no balcão. — Sexta-feira, vendas boas… a gente merece.

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