Quando acordei, ainda piscando, tentando recuperar o foco, percebi que minha visão estava embaçada.
Minha cabeça latejava, pesada, enquanto sons distantes começavam a ganhar forma.
Risos. Baixos. Cruéis.
E então… um gemido baixo.
As imagens finalmente começaram a se ajustar.
Por um segundo, não entendi o que estava vendo.
Então entendi.
Meu estômago revirou.
— Não… — tentei falar, mas minha voz saiu fraca.
Annabell estava completamente vulnerável, inconsciente… sendo manipulada como se não tivesse vontade própria. Pelo homem moreno da casa noturna, com quem dançava momentos antes.
Desviei o olhar, sentindo náusea. Foi quando percebi: eu estava amarrada.
— Me solta! — minha voz saiu desesperada.
— Calma… sua vez vai chegar. O chefe já deve estar voltando para te buscar. Vamos nos divertir com sua amiga enquanto isso — disse o homem parado em pé ao meu lado.
Quando olhei para ele, lembrei.
Era o mesmo que estava na pista com Annabell.
Não o que tinha falado comigo.
Outro.
O pânico tomou conta de mim.
— Deixa a gente ir! — gritei. — Por favor!
O tapa veio rápido. O gosto metálico do sangue invadiu minha boca.
Meu rosto virou com o impacto.
— Ninguém vai te ouvir — disse ele, antes de se abaixar até ficar na minha altura.
Eu estava sentada no chão, amarrada… e ainda assim ele invadiu meu espaço, perto demais.
Seus dedos se fecharam no meu queixo com força.
— Ei! Não b**e nela! O chefe vai te matar! Lembra? Nada de tocar na outra — disse o moreno, sem parar o que fazia.
Minhas lágrimas vieram sem controle.
— Socorro! — gritei novamente.
— Chega!
O loiro puxou um lenço vermelho do bolso e amarrou minha boca.
Tentei gritar, mas só consegui emitir sons abafados.
Meu coração disparava.
Eu ia morrer ali.
CRAC!
O som de um galho quebrando fez o homem virar a cabeça.
— Cuide delas — disse ele, levando a mão para trás da cintura.
Vi o brilho metálico.
Uma arma.
Meu corpo inteiro gelou.
— Vou ver o que é — disse, antes de se pôr de pé novamente.
Ele seguiu em direção à floresta.
O silêncio caiu por um instante.
Pesado.
Errado.
Então —
Um som. Baixo. Profundo. Vindo das árvores. O moreno parou o que estava fazendo.
Outro barulho. Mais próximo.Mais ameaçador.
Ele empalideceu.
— Merda… tem algo aqui.
Ele puxou a arma da cintura e se levantou de sua posição. Meu coração parecia não suportar mais. O suor frio escorria pela minha testa.
Prendi a respiração.
O tempo pareceu parar.
E então —
Um grito.
Alto. Doloroso. Brutal.
BANG!
O disparo ecoou pela floresta.
BANG! BANG!
Mais tiros. Rápidos. Desesperados. Seguidos por um rosnado… bestial. Ecoando entre as árvores.
Outro grito.
O homem gelou.
— Que merda foi essa? — gaguejou.
— Daniel?! — chamou.
Um novo rosnado respondeu.
Ele recuou, tropeçando.
Mais perto agora. Mais aterrorizante.
Ele olhou para mim… depois para Annabell.
Hesitou.
— Dane-se… o chefe pega outra depois. E saiu correndo. Nos deixando ali. Sozinhas. Indefesas. Com aquele som ecoando na escuridão.
Tentei me soltar. Nada.
Olhei para Annabell.
— Acorda… por favor…
Mas ela não se mexeu.
Os gritos ao longe continuavam. O rosnado fazia meu corpo tremer. A dor das amarras queimava meus pulsos.
As lágrimas embaçaram minha visão. Eu não queria morrer. Não assim. Depois de algum tempo de silêncio angustiante.
Ouvi.
Passos.
Pesados. Firmes.
Se aproximando. Meu coração batia tão forte que doía. Prendi a respiração. E então… ele apareceu.
Alto.
Imponente.
Saindo das sombras como se pertencesse àquele lugar.
Por um segundo, achei que fosse a criatura que estava lá fora.
Mas não.
Era um homem.
Um homem que parecia mais perigoso do que qualquer um dos sequestradores.
Vestia apenas uma calça jeans.
Descalço.
O corpo marcado, levemente sujo de terra.
Ele passou por mim.
Como se eu não existisse.
Se aproximou de Annabell.
Observou. Em silêncio. Frio.

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