Depois do jantar, Jessie foi até o escritório com Belle.
O cômodo tinha uma decoração clássica: paredes com estantes cheias de livros e uma mensagem motivacional do lado oposto: "Quem faz o que deve, alcança o que almeja."
Caligrafia, pinturas, antiguidades, jade... Já tinham visto essas coisas um milhão de vezes, mas o pai nunca as tinha deixado tocar ou as ensinado a apreciá-las. Eram leigas.
Christina estava sentada lá, folheando um livro de memórias diversas e ouvindo Jessie recitar as regras da família como se não tivesse nenhuma preocupação.
A garota não as tinha decorado no dia anterior, então, agora, para lidar com Christina, memorizou tudo com relutância e um pouco de dificuldade.
"Já terminou?" Quando viu que a prima tinha parado, Christina levantou a cabeça de leve.
Jessie fez que sim, fingindo obediência e timidez. "Desculpa não ter lembrado tudo. Mas não precisa se preocupar, vou corrigir isso."
"Melhor assim. Você sabe quantas você esqueceu?"
Jessie entrou em choque quando a viu pegar a régua. Ela tinha achado que tudo não passava de encenação para lhe botar medo.
"Irmã..." Inconscientemente, a menina escondeu as mãos atrás das costas, suando de nervoso. "Você não vai me bater de verdade, vai?"
A mulher olhou em seus olhos. "Se eu vou? Você acha que estou brincando?"
A expressão de Jessie enrijeceu, e ela começou a entrar em pânico.
Belle estava atrás dela, sentindo-se inevitavelmente nervosa. Christina tinha mudado muito: antes, a prima era amigável, mas agora era fria, não deixava as pessoas se aproximarem.
"De cem regras, você recitou setenta, esqueceu trinta e errou catorze. De acordo com o combinado, você devia apanhar quarenta e quatro vezes."
Com mãos de ferro, Christina deu sua sentença. "Venha aqui."
Jessie não queria, mas não tinha como se opor. Sem dó nem piedade, ela levou quarenta e quatro reguadas na palma da mão, que, de vermelha, ficou roxa, parecendo uma bola de tão inchada.
Ressentida e com dor, lágrimas escorreram por seu rosto, e ela tremia sem parar.
Aquilo era de partir o coração.
"Vá passar pomada."
Christina devolveu a régua a Jessie e disse: "Volte amanhã à noite, as regras são mesmas. Se você não se importar em sentir dor, pode continuar sendo preguiçosa e desinteressada."
Então, olhou para Belle. "O mesmo vale para você. Aqui as minhas regras são seguidas. Venha recitar com a Jessie amanhã."
"Pode deixar," respondeu Belle sem pensar, e então levantou a mão. "Irmã, eu já... decorei tudo."
As outras duas mulheres olharam para ela. Jessie, que estava com o rosto cheio de lágrimas e maquiagem, ficou boquiaberta.
"O quê? Você decorou tudo?"
Ela tentou de tudo para comunicar à irmã que não deveria agir de forma precipitada; Christina já não era mais a prima que cuidava delas quando criança. Era uma carrasca cruel.
Mas Belle pareceu não entender. Ela observou Christina inocentemente com os olhos redondos.
"Eu estava com a Jessie quando ela memorizou as regras."
Christina assentiu e mandou Jessie embora. Em seguida, disse para a outra: "Recite para mim."
Ela pegou o livro e continuou a leitura.
Belle respirou fundo e se acalmou. Assim como na época da escola, recitou as cem regras da família com facilidade, sem errar nenhuma vez.
Em comparação a Jessie, ela era uma estudante nota dez.
"Mais ou menos."
Christina olhou para Belle com interesse. "Lembro que você era estudiosa, conseguiu uma bolsa de cem por cento na Universidade Sanlucia. Você se formou em design de joias, não foi?"
Os cantos da boca de Belle tremeram. "Em nada. Só acho que a irmã mais velha está muito diferente do que era antes."
"Sério?"
Jessie tinha finalmente encontrado alguém em quem confiar. "Ela parece um... fantasma que voltou do submundo. É tudo muito esquisito, eu não faço ideia do que ela fez nesses três anos em que sumiu."
"Por falar nisso, ela não dificultou as coisas para você? Você recitou mesmo todas as regras da família?"
Os olhos de Belle brilharam, e ela disse: "Não, errei algumas. Ela não disse nada porque eu acabei de chegar."
Num ambiente desprovido de amor, o fingimento sempre fora sua proteção.
Ao ouvir isso, Jessie se sentiu muito melhor. "Tá bem. É impossível memorizar tantas regras em dois dias. Ela acha que a gente é algum tipo de gênio? É claro que está dificultando as coisas de propósito! Mas não precisa ter medo, vou proteger você. A gente vai dar um jeito nela. Você só tem que me escutar e se comportar, e, quando ela menos esperar, a gente mata ela!"
Vendo o ódio e a hostilidade no rosto de Jessie, Belle de repente entendeu o que Christina queria dizer com a área cinzenta.
Não importava o quanto o inimigo fosse forte, se a família se mantivesse unida, não havia nada a temer. O problema era quando o inimigo fazia parte dela.
No escritório, Christina bebia água enquanto se sentava toda torta na cadeira e, em silêncio, observava as primas conspirarem contra ela na câmera de vigilância. Quando ouviu o que Belle disse, uma emoção diferente surgiu em seus olhos calmos.
Ela desligou o vídeo e digitou no teclado. Informações surgiram em sua frente, página por página.
Ao ver a experiência de Belle ao longo dos anos, Christina soltou um suspiro. "O meu tio e a esposa dele são mesmo uns inúteis."
Na calada da noite, tudo estava em silêncio.
Na Mansão das Rosas, com exceção dos guardas e dos criados que trabalhavam à noite, todos descansavam. Christina, contudo, não conseguia dormir. Ela se deitou na cama e leu um livro antigo de memórias, como se estivesse esperando alguém.
Quando o ponteiro anunciou meia noite, houve um barulho suave à porta de seu quarto.
Ela tinha chegado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Vida Feliz após o Divórcio