POV/ NATHAN
Quando percebi que tinha medo de perdê-la numa intensidade que não conseguia explicar, comecei a me afastar. Não funcionou.
Nada funcionava com Sakura.
Eu podia passar semanas sem vê-la e ainda saber quando Diego estava preocupado com ela pelo jeito que atendia o telefone. Podia sair com outra mulher, beber, estudar, trabalhar ou fazer qualquer merda que ocupasse a minha cabeça.
Ela continuava lá.
Até completar dezoito anos e me pedir um beijo.
Eu disse não.
Tentei explicar que ela estava doente, que estava passando por coisas demais e não precisava provar nada para ninguém. Sakura ficou puta. Disse que sabia exatamente o que estava pedindo e que estava cansada de todo mundo decidir o que ela podia fazer só porque tinha câncer.
Eu deveria ter continuado dizendo não.
Em vez disso, beijei Sakura.
O cheiro dela era conhecido. A voz era conhecida. Eu conhecia aquela pessoa havia uma década. Sabia como ela ria, como reclamava, como ficava quando estava com medo e como fingia que não estava.
Mas aquilo não era fraterno.
Meu corpo soube antes que minha cabeça aceitasse.
Eu quis beijá-la de novo antes mesmo de me afastar.
Não sabia quando tinha acontecido. Não existia um ano, um mês ou um dia que eu pudesse apontar e dizer que tinha sido ali. Talvez tivesse acontecido tão devagar que eu só percebi quando já não conseguia voltar.
Mas naquele primeiro beijo finalmente entendi uma coisa.
Eu não queria proteger Sakura porque a enxergava como uma irmã.
Eu queria protegê-la porque a amava.
E também a queria para mim.
Eu estava apaixonado pela irmã do meu melhor amigo.
E Diego jamais me perdoaria se soubesse.
O beijo deveria ter sido suficiente para me fazer parar.
Não foi.
Depois dele, ficou impossível voltar para o lugar confortável em que eu fingia que Sakura era apenas alguém que eu precisava proteger. Eu sabia como era beijá-la, como ela tremia quando ficava nervosa e como me olhava quando queria alguma coisa e estava decidida a conseguir.
Naquela época, Sakura ainda lutava contra a doença. Ela tinha dezoito anos, uma vida inteira que deveria estar começando e um corpo que passara anos sendo furado, medicado, examinado e tratado como se pertencesse mais aos médicos do que a ela.
Eu sabia disso.
Também sabia que Diego confiava em mim.
Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo tentando transformar o que sentia em alguma coisa menor.
Não consegui.
Sakura e eu atravessamos um limite que não deveria ter sido atravessado. Para ela, aquilo carregava todas as inseguranças de uma menina que não sabia quanto tempo teria e queria viver alguma coisa que fosse escolha dela.
Para mim, acabou com a última mentira.
Não foi pena.
Nunca foi.
Eu a quis porque era Sakura.
E depois tive medo.
Medo de Diego descobrir. Medo de Sakura esperar de mim alguma coisa que eu não sabia oferecer. Medo de me transformar exatamente no tipo de homem que eu tinha passado a vida inteira desprezando.
Odair Beaumont tinha sido minha primeira definição do que um homem não deveria ser.
Eu cresci vendo minha mãe definhar ao lado dele.
Rosana nunca voltou a ser a mulher que eu lembrava da infância. Continuava tomando os remédios, emagreceu, sorria pouco e alternava períodos em que parecia querer reconstruir a própria vida com outros em que mal conseguia sair da cama. Ela pediu o divórcio mais de uma vez.
Meu pai nunca facilitou.
Enquanto isso, Rocco seguiu o caminho dele e foi estudar fora. Eu fiquei no Brasil. Durante muito tempo, disse a mim mesmo que não tinha ido embora porque não queria deixar minha mãe sozinha com Odair.

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