POV/ NATHAN
Diego tinha perdido os pais. Tinha assumido responsabilidades cedo demais. Vivia em função da irmã e repetia que, depois de tudo que Sakura enfrentara, queria vê-la com um homem bom. Alguém estável. Um homem de família. Alguém que cuidasse dela.
Eu ouvia aquilo sabendo que ele nunca estava falando de mim.
E concordava.
Eu também não escolheria Nathan Beaumont para Sakura.
Depois da morte dos meus pais, passei por uma época da qual não me orgulhava. Bebia demais, me envolvia com mulheres sem sequer lembrar do nome delas depois, experimentei coisas que só serviam para me deixar anestesiado por algumas horas e continuava acordando no dia seguinte com a mesma cabeça.
A única coisa que ainda me assustava mais do que a minha própria morte era a possibilidade da morte dela.
Eu continuava acompanhando o tratamento de Sakura à distância. Diego nunca teve dinheiro para bancar tudo que aparecia, e eu tinha mais dinheiro do que queria. Parte do patrimônio dos Beaumont me causava nojo. Comecei a fazer doações ao hospital e garantir que algumas despesas fossem cobertas sem que Diego soubesse de onde vinha o dinheiro.
Era mais fácil daquele jeito.
Eu não queria agradecimento.
Queria Sakura viva.
Quando a situação dela piorou e começaram a procurar um doador compatível, participei dos testes sem contar para ninguém. Naquele ponto, eu já estava convencido de que não havia muito em mim que prestasse.
Até receber a notícia.
Eu era compatível.
Lembro de ficar olhando para a informação durante muito tempo.
Depois de anos acreditando que só fazia merda, existia alguma coisa no meu corpo que podia servir para manter Sakura naquele mundo.
Não precisei pensar.
Fiz o que precisava ser feito e pedi que minha identidade fosse mantida em sigilo.
Doei a medula para Sakura.
Ela nunca soube.
Diego nunca soube.
E eu preferia assim.
Durante muito tempo, ninguém soube.
Eu teria dado qualquer coisa que pudesse dar. Medula, sangue, dinheiro. Se alguém tivesse colocado meu coração numa balança e me dito que Sakura precisava dele para continuar respirando, eu teria entregado também.
O problema era que eu teria feito o mesmo por Diego.
De maneiras diferentes, os dois eram minha família.
Diego tinha me dado uma quando eu perdi a minha.
Sakura tinha se tornado a parte mais bonita dela.
E eu estava apaixonado justamente pela pessoa que acreditava não ter o direito de tocar.
Rocco foi o primeiro a descobrir.
Eu já nem lembrava quanto tinha bebido naquela noite quando contei. Ele estava de volta ao Brasil e me conhecia havia tempo suficiente para perceber quando alguma coisa estava errada. Acabei falando da compatibilidade, da doação e do segredo.
Depois falei de Sakura.
Talvez porque guardar tudo sozinho tivesse começado a pesar demais.
Rocco ouviu sem me interromper. Quando terminei, ele ficou alguns segundos me olhando antes de dizer:
— Você é um idiota.
Soltei uma risada sem humor.
— Obrigado.
— Não por amar ela. Por achar que isso transforma você no seu pai.
Aquilo acabou com qualquer vontade que eu tivesse de rir.
Rocco conhecia parte suficiente da minha história para saber onde acertar.
Eu não era Odair.
Sabia disso na teoria.
Na prática, carregava o sobrenome dele, o dinheiro dele, parte do rosto dele e lembranças demais do estrago que aquele homem tinha deixado.
Anos depois, quando finalmente encontrei Nash novamente, descobri que meu pai também tinha deixado marcas nela.
Minha irmã tinha crescido sem ele.
E sem mim.
Eu consegui ajudá-la quando já éramos adultos, depois que um relacionamento violento quase terminou da pior maneira possível. Arrumei dinheiro, proteção e, através de Christian e da Blackwood, uma oportunidade para que ela recomeçasse longe dali, em Portugal.
Nash aceitou minha ajuda.
Mas nunca conseguimos ser irmãos como poderíamos ter sido.
Às vezes ela me olhava por tempo demais e eu sabia o motivo.
Eu parecia com ele.
Talvez fosse por isso que eu tivesse passado a vida inteira tentando proteger as pessoas de tudo aquilo que Odair Beaumont tinha sido.
Nash tinha sido a primeira que eu não consegui proteger.
Minha mãe, a segunda.
Diego tinha me salvado quando eu nem queria ser salvo.
E Sakura...
Sakura tinha sobrevivido.
Talvez fosse exatamente por isso que eu nunca tivesse conseguido acreditar que merecia alguma coisa dela.

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