POV/ SAKURA
Parei de mexer nas roupas e prestei atenção.
Nathan se ajeitou contra a cabeceira e apoiou os antebraços sobre as pernas dobradas.
— Vai ter auditoria nos próximos dias — explicou. — O resultado do concurso ficou para a semana que vem e ainda tem uma porrada de coisa que precisa ser revisada antes disso.
Meu estômago apertou.
— Semana que vem? Achei que sairia depois.
— Também achei. — O olhar dele se perdeu por um momento na parede escura diante da cama. — Eu esperava que Rocco já estivesse acordado quando chegássemos nessa fase.
A brincadeira desapareceu completamente.
Sentei novamente na beirada da cama, dessa vez mantendo um pequeno espaço entre nós.
— Nenhuma mudança?
Nathan balançou a cabeça devagar.
— Está melhorando. Mas ainda não acordou.
Assenti enquanto passava os dedos pelos cabelos, tentando desembaraçar uma mecha. Sky não saía da minha cabeça quando alguém mencionava Rocco.
— Vai ao hospital amanhã?
— Pretendo passar lá. Quero saber como ele está antes de ir para a empresa.
Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, o celular dele começou a vibrar sobre a mesinha ao lado da cama. O som pareceu alto demais depois de tanto tempo ouvindo apenas nossas vozes e respirações.
Nathan se inclinou para pegá-lo. Assim que viu a tela, a testa franziu.
— Quem é? — perguntei.
— Blackwood.
Ele atendeu e levou o aparelho ao ouvido.
— Nathan.
Fiquei sentada, passando os dedos pela ponta do vestido enquanto ele ouvia. A expressão descontraída desapareceu aos poucos.
— Não, Christian não está comigo.
Nathan se afastou da cabeceira e colocou os pés no chão.
— Diego também não atendeu?
Olhei para ele.
A pessoa do outro lado falou por vários segundos. Nathan franziu ainda mais a testa antes de se levantar.
— Espera. O Lorenzo quer fazer o quê?
Meu corpo ficou alerta.
Nathan começou a caminhar devagar entre a cama e a mesa, ouvindo a explicação.
— Uma transferência? Agora?
Ele olhou para o relógio.
— Essa hora da noite?
O silêncio seguinte durou alguns segundos.
— Quanto?
Nathan parou de andar.
A mudança em seu rosto foi imediata.
— Você está falando sério?
Endireitei as costas.
Ele apoiou uma mão na cintura e voltou a escutar.
— Não. Não façam nada.
A pessoa continuou falando, mas Nathan interrompeu:
— Eu não tenho autorização para aprovar uma movimentação desse tamanho e vocês sabem disso. Se Christian não respondeu e Diego também não, esperem. Não transfiram um centavo até alguém verificar isso.
Nathan passou a mão livre pelos cabelos e voltou a andar pelo quarto.
— Eu entendi que foi o Lorenzo que pediu. É justamente por isso que eu estou dizendo para esperar. É quase um bilhão de reais e ele quer movimentar esse dinheiro essa hora da noite. Segurem a operação até conseguirem falar com Christian ou Diego.
Ele escutou mais alguma coisa.
— Não. Eu vou tentar falar com eles também. Qualquer mudança, me liga.
Nathan desligou.
Ficou alguns segundos olhando para a tela, com a testa franzida.
— O que aconteceu? — perguntei.
Ele soltou o ar e passou a língua pelos lábios antes de responder:
— Lorenzo pediu uma transferência.
— Eu ouvi essa parte. Quanto?
Nathan ergueu os olhos para mim.
— Na casa de um bilhão.
Fiquei parada.
— Um bilhão de reais?
— É.
Olhei para o relógio e depois novamente para ele.
— Essa hora?
— Pois é.
A maneira como respondeu me deixou ainda mais atenta. Nathan passou a mão pela nuca e olhou novamente para o celular.
— Isso é muito estranho.
— O problema é o valor?
— O valor já faria qualquer um conferir duas vezes. Mas não é só isso. — Ele se aproximou da cama e parou diante de mim. — Uma movimentação desse tamanho não é coisa que você resolve no meio da noite como se estivesse pagando uma conta. E, se fosse alguma coisa prevista, Christian ou Diego saberiam.
— Mas nenhum dos dois atende.
— Exatamente.
Nathan desbloqueou o celular novamente.
— Pode existir uma explicação. Eu só não vou deixar ninguém movimentar quase um bilhão sem entender primeiro que porra está acontecendo.
Lorenzo.

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