Cristiano apertou o celular com mais força.
Ainda queria dizer alguma coisa, mas, do outro lado da linha, só se ouviu o bip seco da chamada encerrada.
Samuel correu atrás dele.
Ao ver Cristiano sentado dentro do carro, aproximou-se com respeito.
— Senhor.
Cristiano falou sem desviar o olhar da frente.
— Aquilo que eu te disse… Por que ela saberia?
Ela era Isabela.
O que Karine tinha dito ao telefone, minutos antes, deixava claro que Isabela já sabia de tudo.
Samuel ficou visivelmente surpreso.
— O senhor quer dizer que a senhora Isabela já sabe? Eu não contei nada para ela. E agora mesmo não consigo falar com a senhora, o telefone não completa.
Ele se apressou em negar.
Não era fingimento. Samuel realmente não tinha dito nada a Isabela. Primeiro, porque não ousaria. Segundo, porque sequer tinha conseguido contato.
— Não pode ter sido a senhora Bruna… Ou a Srta. Taís? — Arriscou.
Se fosse esse o caso, soubessem ou não, ambas tinham plena capacidade de levar esse tipo de assunto até Isabela, e de distorcer tudo no processo.
A cabeça de Cristiano latejava de raiva.
Ele golpeou o volante com força, duas vezes seguidas.
O dorso da mão, onde o sangramento mal tinha estancado, se abriu novamente. O sangue brotou na hora.
Samuel empalideceu.
— Senhor, por favor, deixe o médico cuidar primeiro do local da punção…
Cristiano não respondeu.
Pegou o celular.
Discou diretamente para Bruna.
Já passava da meia-noite.
Chamou duas vezes antes de ela atender, com a voz ainda carregada de sono.
— Cris…
— Eu e a Isabela não vamos nos divorciar. Pode parar de perder tempo com esse tipo de ideia.
Cristiano falou com os dentes cerrados. Na voz, não havia o menor vestígio de respeito.
Do outro lado da linha, Bruna congelou.
Ainda meio adormecida, demorou alguns segundos para reagir.
— O que você quer dizer com isso? — Perguntou, confusa.
Cristiano respondeu, frio:
— Um adulto digno de respeito não se mete para separar o relacionamento e os sentimentos dos mais novos.
— Então você está dizendo que eu, como mais velha, falhei moralmente? — Bruna retrucou.
Isso deixou Taís tão furiosa que passou a noite inteira sem conseguir dormir.
Naquela noite, com exceção de Isabela, todos ficaram remoendo pensamentos até o amanhecer.
Na manhã seguinte, Isabela acordou revigorada, com a mente leve e o corpo descansado.
Só então percebeu Karine sentada na beira da cama, com uma expressão carregada de ressentimento.
As olheiras profundas denunciavam: não tinha dormido nada.
— Dormiu mal por causa da cama diferente? — Perguntou Isabela, ainda se espreguiçando.
Se fosse questão de estranhar cama, Isabela definitivamente não tinha esse problema. Onde quer que estivesse, bastava o sono chegar. Encostava a cabeça no travesseiro e apagava sem cerimônia, como se o mundo tivesse acabado.
Karine lançou-lhe um olhar pesado.
— Você não ouviu eu atendendo o telefone ontem à noite?
— Você atendeu o telefone? Não faço ideia.
— Você me deu um chute! — Reclamou Karine, indignada. — Não ouviu o celular tocando?
Isabela pensou por um segundo.
— Esqueci.
Ela se lembrava vagamente de uma vibração insistente, irritante demais para quem estava mergulhada no sono.
Naquela hora, só tinha acordado Karine com um chute, virado de lado…
E voltado a dormir.
Depois disso, tudo virou um borrão confuso, como se tivesse flutuado entre nuvens e sonhos, sem qualquer consciência do que acontecia ao redor.

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