Durante anos, tinha sido sempre assim.
De manhã, quando Cristiano saía para trabalhar, Bruna mandava alguém acordar Isabela. À noite, mesmo depois que ele já tinha ido embora, ainda dava um jeito de importuná-la até tarde.
E, na cabeça dela, aquilo fazia parte do que se esperava de uma nora.
Então era isso que Wallace queria dizer?
Que Isabela ainda tinha o direito de se fazer de vítima?
Ou estava apenas aproveitando a oportunidade para cobrar, com juros, tudo o que tinha engolido no passado?
Cristiano cerrou os dentes.
— Me soltem.
As palavras saíram secas, pesadas, mastigadas na raiva.
Em Nova Aurora, ninguém ousava tratá-lo daquela forma.
Naquela noite, porém, ele já tinha visto de tudo.
Desde que passara a ter Sérgio ao lado, Isabela parecia não conhecer mais limite nenhum.
Wallace fez um gesto discreto com a mão.
Os seguranças soltaram Cristiano na mesma hora.
Ele se levantou devagar, passou a mão no canto da boca e, ao olhar o dorso da mão, viu o sangue.
Ergueu os olhos para Wallace.
O olhar vinha gelado.
— Acho que vocês ainda não entenderam uma coisa. Eu e Isabela ainda somos casados. — Ele falou pausadamente, marcando cada palavra. — Então agora eu preciso da autorização de vocês para entrar no quarto da minha própria mulher?
Wallace não mudou de expressão.
— Casados ou não, isso já não faz tanta diferença, Sr. Cristiano. Melhor não levar esse casamento tão a sério agora. Quando a nossa senhorita levou, ninguém aqui deu o menor valor.
Era verdade.
Houve um tempo em que Isabela tinha levado aquele casamento a sério.
Tentara protegê-lo, sustentá-lo, salvar o que ainda podia ser salvo.
E o que recebeu em troca foi desprezo, frieza e gente tentando derrubá-la por todos os lados.
Por isso, se agora ela já não tratava mais aquele casamento como algo importante, não havia nada de estranho nisso.
Cristiano respirou fundo, segurando a própria fúria.
— E quem está levando isso a sério agora? É ela que não quer se divorciar.
Wallace sustentou o olhar.
— Divórcio ou não... O de vocês nunca foi um casamento de verdade. Sempre foi um casamento pela metade.
Cristiano se calou.
Bruna e Taís também.
Um casamento pela metade.
Então era isso?
Isabela podia usar o nome de esposa de Cristiano quando lhe convinha para se impor dentro da casa, para apertar as duas, para humilhá-las sem freio.
Mas, no fundo, nunca tinha sido reconhecida como esposa de verdade.
Agora tudo começava a fazer sentido.
Só que até onde ela pretendia levar aquilo?

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