Suas sobrancelhas assumiram um tom sombrio.
Como assim não havia relação?
A princípio, Júlia não pretendia contar a Dona Helena, temendo que ela não aguentasse o choque.
Mas, naquele momento, talvez fosse a melhor hora.
— Vó, a verdade é que eu já decidi...
Dona Helena apertou a mão de Júlia que não estava machucada, colocando um pouco de força, como se quisesse lhe dizer algo.
As mãos da idosa eram muito magras, de pele clara e enrugada, como ramos secos cobertos de geada.
— A vovó já sabe de tudo, Júlia. Eu posso conversar um pouco com você?
Júlia ficou atônita por um instante.
Dona Helena suspirou: — Não fique irritada com o Sérgio agora, você precisa descansar, não vale a pena.
Sérgio olhou para elas.
Ela estava irritada?
Parecia diferente do passado, exalando uma enorme seriedade.
Dona Helena o fuzilou com o olhar: — Saia primeiro, não entre para atrapalhar sem a minha permissão.
Sérgio olhou para Júlia e, surpreendentemente, não retrucou, saindo diretamente.
A porta do quarto fechou, e ele ficou parado com a testa franzida.
Ainda pensava nas sutis mudanças de Júlia naqueles últimos dias.
Ultimamente, ela agia com mais ostentação e falava de forma muito mais dura.
Em relação a Clarice e à sua mãe, ela batia e jogava água sem cerimônia nenhuma.
E também tentava criar uma linha clara com ele.
A mudança de Júlia era desconfortável; mas, ao mesmo tempo, despertava ainda mais a curiosidade dele.
O que afinal ela estava pensando?
Na porta, os guarda-costas da família Santana e o seu próprio chefe se entreolharam.
Nenhum deles parecia ter mais prestígio que o outro.
Ele segurou levemente as articulações da mão, imerso em pensamentos.
Foi repentinamente chamado por Marlene: — Sérgio, você poderia vir fazer companhia à Clarice um pouco? Hoje de manhã a polícia veio procurá-la de novo e fez um monte de perguntas sobre um gravador de voz. Uma pessoa já se entregou, e eles continuam não nos deixando em paz; o que isso significa?
A voz dela continha um tom de indignação: — Essa Júlia também age como quer, acusando a nossa Clarinha sem base nenhuma. Agora ela fica mal só de ver a polícia.
Sérgio lançou um olhar para o quarto ao lado.
Júlia nunca imaginou que ouviria aquelas palavras da boca da senhora.
A fortaleza que ela havia erguido sozinha foi repentinamente rompida, abrindo uma fresta em sua barreira.
Se antes ela podia usar a frieza e a indiferença para selar a mágoa, agora, a sua casca de gelo fora quebrada, e havia água lá dentro.
Quanto mais tentavam confortá-la, mais doloroso se tornava.
Dona Helena também já havia sido jovem, já passara por muito, o que a fez sentir uma tristeza profunda por ela.
Sempre tentara evitar interferir no relacionamento do jovem casal, o máximo que fazia era criar oportunidades para que eles convivessem.
Chegarem àquela situação também foi fruto da sua permissividade.
Pela primeira vez, Dona Helena falou com Júlia sobre o passado de Sérgio.
Contou sobre quão rigoroso era o pai dele; tão rigoroso que, quando ele tinha cinco anos, deixou comida cair na mesa durante o jantar e seu pai o castigou batendo forte na palma de sua mão com os garfos até sangrar.
Aos seis, por se atrasar para a aula de francês ao resgatar um gatinho de rua, foi forçado a abandonar seu próprio bichinho de estimação, assistindo-o ser esmagado vivo ao atravessar a rua.
Aos oito, ao ser atacado por garotos mais velhos que lhe quebraram a perna, o pai o chamou de inútil e lixo.
Tempos depois, os pais dele morreram, e ele passou a viver de migalhas nas casas dos tios.
Dona Helena e o marido nunca acharam que esse tipo de educação fosse ruim; afinal, nas famílias ricas, os filhos sempre eram controlados de forma severa, caso contrário, usariam o dinheiro para fazer o que bem entendessem.

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