A voz do médico o trouxe de volta à realidade.
Sérgio respirou fundo e, com a voz rouca, disse:
— Você nunca me contou nada sobre tudo isso.
Júlia permaneceu em silêncio.
Sinceramente, ela não via mais sentido em trazer tudo aquilo à tona.
Mesmo que tivesse contado na época.
Sérgio a acharia um estorvo por ter atrapalhado seu tempo de trabalho, ou pensaria que ela estava fingindo ser coitada para ganhar simpatia.
A tristeza e a decepção só transpareceram no rosto de Júlia por um instante.
Porque seu coração já estava perfurado e esburacado; como uma ampulheta, qualquer sentimento apenas escorria pelos ferimentos.
O quarto mergulhou num silêncio profundo, deixando o ar bastante constrangedor.
Sérgio dirigiu-se a Júlia:
— Vou procurar o melhor especialista em reabilitação. Júlia...
Ele quis dizer "desculpe, eu estava muito focado no trabalho".
Mas as palavras simplesmente não saíram.
O rosto de Júlia exibia uma aversão nítida.
Além disso, ele nunca havia se rebaixado para pedir desculpas a ninguém.
Quando o celular de Júlia tocou, os dois respiraram aliviados.
Ela atendeu.
Era Vera Guedes, sua mãe. De novo, exigindo dinheiro.
E dessa vez, chorava copiosamente.
Alberto Guedes não estava doente de verdade; depois de vender a casa e ficar com as mãos cheias de dinheiro, acabou viciado em jogos de azar.
Como diz o ditado, ajuda-se numa urgência, mas não se sustenta o vício.
Ainda mais o vício de um jogador inveterado.
Júlia lançou um olhar na direção de Sérgio e o viu conversando com o médico, distraído.
Com um tom neutro, ela aconselhou:
— Mãe, se eu fosse você, iria dar uma boa verificada nos seus próprios cartões bancários e contas poupança.
Vera já estava encurralada e no limite do desespero:
— Júlia, precisa mesmo falar assim com a sua mãe? É um milhão e meio! O pessoal já apareceu lá em casa e disse que se não pagarmos a dívida, vão quebrar as pernas do seu pai!
— Você agora é a Senhora Santana, um milhão e meio pra você não faz diferença nenhuma. Salva o seu pai!
Júlia sentiu uma avalanche de sentimentos confusos.
Era verdade, mesmo a essa altura, mesmo com Alberto afundado sem salvação, ela não conseguiria simplesmente assistir os capangas baterem até deixá-lo aleijado.
Mas Júlia também sabia que, independentemente do que sentisse, não podia dar o braço a torcer para sua família.
Caso contrário, eles continuariam a agir de forma desenfreada e causariam desastres ainda maiores.
Portanto, recusou de maneira irredutível.
Vera, furiosa, esbravejou:
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