— Queria te convidar para jantar.
Júlia Guedes, na verdade, já imaginava quem havia enviado as flores.
Embora o cartão não tivesse assinatura, não era difícil deduzir pelo tom da mensagem.
Aquela foi a primeira vez que Tiago Cavalcante demonstrou algo de forma tão explícita, e também a primeira vez que Júlia o rejeitou.
Tiago não se deu por vencido:
— É por causa do Lucas Franco?
Júlia sorriu, resignada.
— Parece que os boatos na internet têm circulado longe demais ultimamente.
Os olhos de Tiago brilharam.
Júlia não queria causar mais problemas a Lucas, então não teve escolha a não ser usar o seu escudo habitual mais uma vez.
— Diretor Cavalcante, a verdade é que eu já sou casada.
Tiago abriu a boca.
Queria dizer a ela que, afinal, o relacionamento dos dois nem ia bem.
Porém, a atitude de Júlia era muito clara.
Ela não era como aquelas pessoas que diziam não da boca para fora, mas secretamente perguntavam se ele poderia lhes comprar uma bolsa de grife.
Também não era do tipo que recusava de dia, mas dava um jeito de rastejar para a sua cama à noite.
Seu olhar era límpido e brilhante; quando sorria, lembrava uma água com gás com um toque de laranja.
Instigava o coração, mas sem ser avassaladora.
Tiago sentia como se carregasse uma lamparina ao vento no peito.
A qualquer sopro, a chama oscilava, prestes a apagar.
— Você ainda gosta do seu marido?
Júlia ficou em silêncio.
Como ela poderia responder a isso?
Se dissesse que gostava, sua relação com Sérgio Santana estava longe de ser resumida em apenas duas palavras.
Além disso, o seu amor parecia ter sido escrito em um papel frágil.
Amarelado pelos anos, até mesmo a caligrafia já estava borrada e ilegível.
Se dissesse naquele momento que não gostava, não seria o mesmo que dar falsas esperanças a Tiago por nada?
Júlia assentiu de leve.
— Ainda temos alguns laços.
Era a primeira vez que Tiago era rejeitado de forma tão categórica.
Sentiu um aperto no peito.
Mas não sabia o que dizer diante de uma Júlia que traçava limites tão definidos.
Era como nos negócios: quem fazia a primeira oferta corria o risco de sair no prejuízo.
Mas, ao mesmo tempo, estabelecia a âncora de preço.
Ele também queria criar uma âncora psicológica na mente de Júlia.
Após partir, Tiago não voltou para casa; foi direto para um bar.
Então, mais uma vez guiado pelo princípio de que a infelicidade alheia era a sua alegria, ele ligou para Sérgio Santana.
— Irmão, vem beber.
Sérgio também havia recebido o exame de sangue de Clarice Cardoso naquele dia.
Ele dirigiu até o local combinado.
Tiago se atirou sobre ele assim que o viu, quase chorando:
— Minha deusa me rejeitou.
Sérgio já havia descoberto, na última vez, que a tal deusa era Júlia.
Ele serviu um copo de bebida.
— Júlia te rejeitou? Por quê?
Tiago lamentou em voz alta:
— Diz ela que é por causa daquele marido inútil, o desgraçado que não foi buscá-la no aeroporto, que deu o bolo e me fez agir por impulso! Um sujeito que tem um tesouro em casa e não valoriza, que a trata mal, mas não se divorcia de jeito nenhum! Que filho da mãe!

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