Em dias normais, Júlia talvez não fosse tão rápida em reagir.
Mas agora, movida pelo instinto, protegeu a barriga com a mão e deu um passo para o lado.
Tia Simone errou o alvo e ainda por cima acabou pisando nos chinelos de Júlia.
Suas pernas fraquejaram e ela caiu de joelhos com um estrondo no chão.
Júlia, por sua vez, nunca havia visto uma visita prostrando-se daquela forma a ponto de pedir presentes como se fosse ano novo.
Tia Simone gemeu:
— Ai meu Deus, é o fim do mundo! Os meus joelhos!
Por mais bem cuidada que estivesse, Tia Simone já beirava os cinquenta anos.
Suas juntas já não eram as mesmas; cair era fácil, mas levantar era muito difícil.
Júlia suspirou aliviada alguns segundos depois, sentindo um turbilhão de emoções.
Embora tivesse decidido fazer o aborto, desde que soubera da gravidez, ela já agia como mãe.
Sem que ninguém lhe ensinasse ou a advertisse, sabia exatamente como proteger a criança.
Tia Simone apoiou-se no sofá e levantou cambaleante.
— Júlia! Você perdeu o respeito pelos mais velhos? Acha que a família Santana te deve alguma coisa?
— Virou Senhora Santana e se esqueceu até das suas origens? Oh, casou para arrancar o máximo de dinheiro possível, e ainda tem a coragem de arruinar o noivado do nosso Osvaldo! Quanta perversidade a sua!
Júlia recuperou os chinelos e recuou alguns passos.
— Pelo que diz, Tia Simone, parece que casar na família Santana foi uma dádiva.
Tia Simone zombou:
— E você ainda está insatisfeita! Se não estava bom, não devia ter casado.
Júlia sorriu:
— Estou completamente insatisfeita. Se pudesse voltar atrás, jamais teria me casado com ele.
Sérgio saiu do elevador bem a tempo de ouvir aquelas palavras de Júlia.
Assim que soube que a Tia Simone tentara descobrir o endereço de Júlia, ele a seguiu imediatamente.
Mas ele não esperava que...
O apartamento de Júlia era do tipo exclusivo, com elevador privativo para aquele andar.
Era impossível ver o elevador sem sair de casa.
As palavras dela atingiram Sérgio como um punhal, deixando-o mudo.
Enquanto isso, Tia Simone insistia em agarrar Júlia, exigindo explicações.
— Tia Simone, pelo que me lembro, quando o meu tio deixou a Oceano, ele assinou um acordo em que não teria sequer o cargo que tem hoje na subsidiária.
— Além disso, sobre o Osvaldo...
Tia Simone paralisou por um instante.
— Sérgio, eu vim hoje até aqui só para tratar do assunto do noivado.
Quando Sérgio não estava sorrindo, ele impunha uma aura opressora imensa.
Virou-se de lado, bloqueando a luz; os olhos e a sombra que projetava pareciam muito mais profundos que os das pessoas comuns.
— Sério? Achei que fosse sobre o testamento da Dona Helena.
Tia Simone não podia concordar, mas também não queria negar.
Se negasse, não confirmaria tudo?
Sérgio não quis continuar aquela discussão infrutífera. Pelo contrário, ordenou:
— Desça. Volte para o seu carro.
Sem coragem de bater de frente com ele, Tia Simone não teve escolha senão ir embora indignada.
Após sua saída, Sérgio finalmente fechou a porta.
Ele viera hoje para discutir sobre a gravidez de Clarice e, no fim, levar Júlia de volta para a mansão.

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