Quem diria que ouviria aquelas palavras na porta.
— O que aconteceu entre a Clarice e eu não vai afetar o nosso relacionamento.
Ao dizer aquilo, Sérgio Santana deixava claro que não se divorciaria de Júlia Guedes.
Ele podia dar dinheiro, casas, ações, mas não abriria mão do próprio casamento.
Júlia quase riu de tanta raiva.
— Sendo assim, eu ainda deveria te agradecer?
Sérgio exibiu uma expressão exausta.
— Júlia, você tem mesmo que falar comigo com tanta hostilidade?
Ao perguntar aquilo, ele demonstrou uma surpreendente sensação de impotência.
O celular de Júlia, deixado no móvel da entrada, acendeu por um instante, sem emitir som.
Era uma mensagem do hospital, lembrando da consulta.
Só então Sérgio percebeu que Júlia estava trocada, pronta para sair.
— Você vai ao hospital?
Ele franziu a testa:
— Não está se sentindo bem?
Por mais que pensasse, ele jamais imaginaria que Júlia estivesse grávida.
Afinal, a própria Júlia havia admitido que eles nunca tinham tido relações.
— Com licença.
Júlia saiu acompanhada de Patrícia Prado.
O instinto de Sérgio foi perguntar se Júlia queria que alguém a levasse.
Mas, lembrando-se das palavras dela instantes atrás, não disse nada.
Que fizesse o que quisesse.
Júlia e Sérgio saíram do apartamento, um após o outro, sem trocar uma única palavra durante todo o trajeto.
Apenas quando Júlia já estava no carro, ele enviou uma mensagem.
[A vovó está muito preocupada com você.]
Júlia apertou os lábios.
Patrícia, que estava dirigindo, viu Júlia fechar os olhos e suspirou levemente.
Para ser franca, ela até esperava que Sérgio fizesse mais uma pergunta.
Afinal, uma gravidez era responsabilidade de duas pessoas.
Quando viu Júlia protegendo o abdômen momentos antes, Patrícia percebeu que aquilo não estava sendo fácil para ela.
Júlia adormeceu no carro.
O médico prescreveu uma pilha de exames.
Normalmente, com três semanas de gestação, não seria necessária uma cirurgia; o procedimento poderia ser feito com medicamentos.
Mas, como Júlia havia apresentado sinais de ameaça de aborto e havia um pouco de acúmulo de sangue ao redor do saco gestacional, a cirurgia reduziria as chances de infecção.
Após realizar todos os exames, Júlia foi ao vestiário vestir a roupa hospitalar esterilizada.
Ao tirar a roupa, olhou para o seu ventre, que ainda estava plano.
Embora não houvesse nenhuma mudança aparente, ela simplesmente sabia que ali dentro havia uma pequena semente enraizando-se e brotando.
Era uma sensação muito peculiar.
Para a maioria dos homens, talvez o sentimento de paternidade só surgisse ao ver o bebê nascer.
Mas, para uma mãe, o instante em que o bebê se instalava e começava a crescer era o início de tudo.
Júlia sabia que a criança ainda não tinha forma, assemelhando-se a um pequeno grão de feijão.
Contudo, de forma inexplicável, conseguia sentir dois batimentos cardíacos.
Júlia observou as frias e pesadas portas do centro cirúrgico se fecharem lentamente.
Observou a agulha perfurar a sua veia.
Viu a pressão arterial, a frequência cardíaca e vários outros indicadores exibirem números frios.
Fechou os olhos vagarosamente.

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