Divórcio?
Sérgio não assimilou logo a situação.
O que Júlia acabara de dizer?
Que queria se divorciar dele?
Devia ser piada.
Um vislumbre de estupor cruzou o olhar de Sérgio.
Ele não estava conseguindo entender.
Se Júlia estava apenas descontando nele a sua ira sobre Clarice e a gravidez dela.
Ou se era só uma manobra retórica para desviar a atenção, já que foi pega invadindo a casa para exigir satisfações.
A expressão de Júlia não trazia um pingo sequer de hesitação.
Aquilo deixou Sérgio com um vazio no estômago.
Uma ansiedade indescritível se apossou dele.
Seu subconsciente lhe dizia que Júlia era incapaz de deixá-lo.
Afinal, a família Santana tinha um poder aquisitivo esmagador, sustentando Júlia em luxo e conforto por três anos.
Mesmo ele próprio, tirando o acidente com a gravidez de Clarice, nunca havia feito nada que a prejudicasse.
Ao ouvirem aquilo, mãe e filha jubilaram internamente.
Apoiada no abraço de Sérgio, Clarice falou em voz baixa:
— Júlia, por favor, não culpe o Sérgio. Se você realmente não puder me suportar, eu posso desaparecer.
Ela encenou uma expressão atenciosa e solícita.
— O mais importante entre um casal é o entendimento mútuo. Você não deve falar em divórcio por qualquer briguinha.
Marlene soltou um pequeno muxoxo presunçoso.
— Sérgio, você está vendo. É a Júlia que... é ela quem não quer mais viver com você. Sinceramente, sinto muito por você.
— Anos de dedicação para acabar dessa maneira. Com as habilidades que a senhorita Guedes tem, com certeza ela já deve ter arrumado outro para ocupar seu lugar.
Júlia olhou na direção delas, imperturbável.
E perguntou ao guarda-costas:
— Pode fazê-la calar a boca?
O guarda-costas enfiou uma meia na boca de Marlene.
Todos ignoraram os grunhidos abafados de Marlene.
Sérgio sentiu as têmporas pulsarem de dor junto com seu estômago e respirou fundo.
Quando abriu a boca para falar, sua voz estava subitamente embargada.
— Júlia.
Ele tentou ao máximo manter a pose fria.
Mas falhou miseravelmente.
No fim, Sérgio optou por apaziguar as coisas da sua própria maneira:
— Sobre essa invasão de hoje, eu posso deixar passar, mas não toque mais no assunto de divórcio.
— Você vai deixar passar?
Júlia quase teve que rir daquela ousadia.
Ela fez que sim com a cabeça:
— Ótimo.
Júlia, sem permitir que Sérgio sequer soltasse a respiração, continuou:
Júlia entregou as gravações para a polícia.
Diferentemente da vez anterior, devido à proximidade da relação entre Sérgio e a mãe de Clarice, ele também teve de ser submetido a um interrogatório.
A gravação foi confiscada para que houvesse sigilo nas confissões e evitar combinações de depoimento.
Sérgio não foi exposto a ela em nenhum momento.
— Sr. Sérgio, o senhor pode se retirar por enquanto. Mas a Srta. Cardoso e a mãe dela deverão permanecer retidas provisoriamente.
Sérgio franziu o cenho.
— Ela está grávida.
O policial, não sabendo se ria ou chorava, explicou:
— Não se preocupe, seremos razoáveis nos nossos procedimentos.
— Posso perguntar... do que Júlia... do que a minha esposa as está acusando?
Apesar de os policiais lidarem com todos os tipos de pessoas na sua rotina.
Ainda assim, estavam intrigados com aquela fofoca.
Afinal, esse diretor, o poderoso Sr. Santana, parecia preocupar-se exclusivamente com a Srta. Cardoso, sendo indiferente à condição de sua própria esposa grávida.
Família rica era um bicho engraçado.
— Sinto muito. Com o processo em andamento, nós não temos a permissão para divulgar os detalhes.
Sérgio caminhou em direção à luz dos postes em frente à delegacia, passando pela entrada.
E deu de cara com Júlia.
Ela estava sob o poste de luz, com os ombros enrolados num cobertor fino e com a sua garrafa térmica na mão, enquanto conversava com Patrícia e os guarda-costas.
Sérgio interrompeu seus passos e seus dedos curvaram-se involuntariamente.
Cada músculo no seu corpo estava teso até o limiar da dor.

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