Havia algo que ela não sabia se deveria dizer.
Embora ela realmente quisesse uma promoção e um aumento de salário.
O mérito não era apenas dela.
— Não é de um restaurante exclusivo — disse a assistente Ding em voz baixa.
— Como é?
— O que eu preparei não foi de um restaurante — repetiu a assistente Ding. — Eu aprendi com a sua esposa.
O garfo na mão de Sérgio parou.
— Júlia?
A assistente Ding assentiu com a cabeça.
Então ela viu o chefe, sempre tão focado, ficar paralisado por alguns segundos.
Até que Éder bateu na porta e entrou.
— Diretor Santana, há um visitante aguardando na recepção.
Sérgio olhou para o sistema do escritório.
Heitor Cardoso.
O pai de Clarice com certeza estava ali por causa de Marlene Martins, que ainda estava na delegacia.
— Peça-lhe que vá para a sala de reuniões.
Sérgio tinha uma reunião logo após o almoço.
O fato de não ter ido encontrá-lo imediatamente já mostrava a sua postura.
Se Heitor Cardoso tivesse um pingo de bom senso, deveria ter saído da empresa o mais rápido possível.
Mas ele não o fez.
Heitor Cardoso esperou na sala de reuniões por quase uma hora até que Sérgio finalmente aparecesse.
Sérgio não deu a Heitor a chance de trocar gentilezas.
— O Sr. Cardoso é um homem ocupado. Ouvi dizer que o projeto na Região Sul está indo muito bem.
O tratamento de "Sr. Cardoso" e a menção ao projeto quase fizeram Heitor perder o sorriso.
Da última vez que se encontraram, Sérgio o havia chamado de "Sr. Heitor".
O projeto da Região Sul também foi conquistado por Marlene Martins graças às suas conexões com o Oceano.
Isso era um aviso para que não fizesse exigências absurdas.
Heitor pretendia pedir a Sérgio que tirasse a esposa da prisão, mas acabou recuando para a segunda opção.
— Peço que não interfira no caso da mãe de Clarice. Considere isso um favor a mim e ao seu filho que ainda vai nascer.
Sérgio sabia que ele pretendia usar os próprios contatos para resolver a situação.
— Fique à vontade, Sr. Cardoso.
De qualquer forma, ele havia prometido a Júlia que não interferiria no processo de investigação.
Heitor não teve pressa em sair; em vez disso, sorriu.
— Sabe, vim para a Cidade N com tanta pressa que ainda não fui ver a Clarinha. Ouvi dizer que os enjoos da gravidez dela estão muito fortes?
Na gaveta do escritório de Sérgio, havia uma fragrância sólida.
Tinha um aroma suave de menta e frutas cítricas.
E trazia também um leve toque amadeirado.
Era um cheiro calmante, que parecia 'caro', mas não se impunha demais.
Sérgio gostava muito.
Ele usava há anos e já havia se acostumado.
Sérgio olhou para Éder.
— Não há mais estoque da fragrância sólida de antes?
Sérgio ergueu as sobrancelhas.
Que tipo de desculpa era aquela?
Por acaso lhe faltavam canais, contatos ou dinheiro?
Era incrível ter de ouvir uma justificativa tão bizarra.
— A fragrância era feita à mão pela sua esposa — explicou Éder.
Não haviam recebido nada de novo nos últimos meses.
Quando acabava, acabava de vez.
Sérgio encarou Éder friamente, sem dizer uma palavra.

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