Após escutar aquilo, Sérgio ficou longo tempo sem reação.
Porque a expressão de Júlia não parecia brincadeira.
E a definição dela para o relacionamento deles seria baseada unicamente no "suportar"?
Sérgio tentou rebater incontáveis vezes em sua mente.
Queria dizer que ela estava errada, que nunca a viu como uma mera posse. No entanto, não possuía argumentos sólidos para provar.
Júlia se desvencilhou do aperto dele.
A negociação do divórcio não entregou a nenhuma das partes o desfecho esperado.
Quando Sérgio abriu a porta, o Sr. Xavier apenas acenou de leve com a cabeça, indicando que voltaria mais tarde.
Do corredor, vieram ruídos de passos miúdos sobre saltos altos.
— Senhorita Cardoso, por favor, aguarde aqui, o Diretor Santana está no meio de uma reunião.
— Que reunião é essa tão importante para que me larguem em uma sala qualquer?
A assistente Ding permaneceu em silêncio.
Clarice deu uma risadinha: — Sempre que eu venho ao Oceano ver o Sérgio, não passo pelo corredor VIP?
Evidentemente, aquelas palavras ecoaram até os ouvidos de Júlia.
Ela lançou a Sérgio um olhar permeado de ironia.
Nisso, Clarice não estava exagerando.
Júlia recordava perfeitamente o momento em que, próxima aos elevadores, presenciou uma cena bem constrangedora do diretor e sua "namorada".
A expressão de Sérgio se tornou de claro descontentamento.
A assistente Ding interveio: — Diretor Santana, a Senhorita Cardoso se negou a aguardar na sala comum, por isso...
Desde que havia deixado a delegacia, Clarice ainda não tinha visto Sérgio.
Ela tinha tentado ligar várias vezes, sem sucesso, e foi isso o que a motivou a ir pessoalmente ao encontro dele.
Ao avistar Júlia, Clarice estancou por um segundo.
Imediatamente adotou um ar de fragilidade para dissimular o brilho de ressentimento que repousava em seus olhos.
— Me perdoe, Sérgio. É que o ar-condicionado na sala de baixo estava forte demais e meu médico recomendou que eu não tomasse friagem.
Sérgio fixou o olhar nela, com o semblante impenetrável.
Ele guardava em seu peito uma grande ansiedade e em seu rosto transparecia a irritação.
Os olhos de Clarice se encheram de lágrimas.
Como Sérgio poderia preferir acompanhar aquela mulher?
— Sérgio, eu...
Mas Sérgio já havia entrado no elevador com Júlia.
Ao chegarem ao térreo, os funcionários, deparando-se com a ilustre figura do chefe da empresa, prestaram suas reverências.
— Bom dia, Diretor Santana.
— Olá, chefe.
Sérgio correspondeu os cumprimentos com acenos, prosseguindo ao lado de Júlia em direção à saída das catracas.
Suas intenções eram límpidas. O fato de persegui-la indicava que ele tinha algo que ela precisava saber.
— Se houver qualquer outra condição, me diga.
Casas, carros, ações... tudo estaria à sua disposição.
Júlia nem piscou diante da oferta.
Ao retornar à sala de sua presidência, Sérgio estava totalmente alheio ao burburinho acalorado no chat de mensagens do grupo da empresa.
[Meu Deus do céu, acabei de presenciar o impossível! Eu vi o chefe abandonar seu trono e descer pessoalmente para se despedir de alguém, e isso com os meus próprios olhos!]

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