Ela sequer percebia que seu rosto estampava pura hostilidade.
Feito um ouriço sempre pronto para espetar.
O olhar de Sérgio recaiu sobre ela por alguns instantes, desviando-se em seguida.
— O médico disse que, ultimamente, você passou por oscilações emocionais extremas, além da hipertensão gestacional. Foi por isso que seu nariz sangrou.
— A partir de hoje, você vai morar aqui. Os empregados, os guarda-costas, os médicos, e até os jardineiros... todos trabalharão exclusivamente para você.
Júlia captou a mensagem nas entrelinhas e foi tomada pela incredulidade.
— É por isso que você arrancou o chip do meu celular?
Seu corpo inteiro tremia.
— Não é possível, Sérgio. Eu tenho trabalho, tenho o meu agente e a equipe da série me esperando.
Ao escutar aquilo, Sérgio mergulhou em silêncio.
Os olhos dele passaram a vagar de um lado para outro, fixando-se na barriga de Júlia mais uma vez.
No entanto, dessa vez o olhar era muito mais pesado, transbordando uma tensão sufocante.
Ele chegou até mesmo a esticar de leve os lábios.
— Não precisa se preocupar. Se quiser fazer essa série, não vão faltar oportunidades no futuro.
Júlia apertou os lábios com força.
Aquela era a oportunidade pela qual ela havia lutado tanto.
Apesar da gravidez, não houvera brecha no contrato para dispensá-la.
E, com um comentário vazio, Sérgio achava que podia destruir tudo. Com que direito?
Sob a mesa, Júlia cerrou os punhos.
Ela reparou que os cabelos dele estavam desgrenhados e caíam sobre a testa, com os primeiros indícios de uma barba por fazer pontilhando o queixo.
Ele apresentava fortes olheiras, e a área em torno da íris estava manchada de vermelho.
Se fosse há algum tempo, ela provavelmente sentiria pena.
Agora, contudo, aquilo lhe causava arrepios constantes.
— Não.
Júlia recusou firmemente:
— Você não tem o menor direito de restringir a minha liberdade! Vou voltar a trabalhar agora mesmo!
Sérgio pareceu ouvir, mas ao mesmo tempo agiu como se não tivesse escutado.
Levantou o queixo sutilmente, indicando a um empregado que lhe servisse um pouco de fruta.
Em seus dedos, o líquido das uvas ainda marcava a pele.
Ele, um homem habitualmente obcecado por limpeza, não se importou de forma alguma com a sujeira.
Entrelaçou as mãos tranquilamente.
— A princípio, passei bastante tempo refletindo sobre isso.
O tom de Sérgio tornou-se sombrio e baixo:
— Você está grávida e ainda estamos casados. A sua segurança, a sua saúde... tudo deveria ser muito bem cuidado, mesmo que essa coisa...
Ele lançou um rápido olhar de lado e proferiu com uma pontada de crueldade:
— ...não seja um filho meu.
Ouvir aquelas palavras deixou Júlia absolutamente atônita.
Como assim não era um filho dele?
Era possível que o homem culto e educado que ela conhecia pudesse soltar um absurdo daqueles?
Ignorando por completo o choque que transparecia no rosto dela, Sérgio continuou com a mesma frieza:
— Ou, se você for capaz de suportar melhor... o médico pode simplesmente tirar essa criança.

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