— Dora, você não deveria me chamar de tio, deveria me chamar de pai.
Ao dizer essas palavras, ele sentiu um aperto no coração.
Lembrou-se, sem motivo aparente, de como Júlia ficava quando estava grávida.
A pequena não sabia que o pai já a conhecia muito antes de se encontrarem.
— Então... Tio Papai, por que você sempre fica olhando para a minha mamãe?
— Porque o papai gosta da sua mamãe.
— A mamãe também gosta do Tio Papai.
Os olhos de Sérgio brilharam ao ouvir aquilo.
Será que Júlia ainda sentia amor por ele, apenas guardando rancor por causa do passado?
A alegria mal teve tempo de inundar seu peito.
Dora acrescentou, rindo alegremente:
— A mamãe já prometeu para a Dora que vamos levar flores para você no cemitério juntos
...
Sérgio respirou fundo, muito fundo.
A veia no meio de sua testa latejava.
Júlia.
Ela teve a coragem de dizer para a criança que o pai estava morto???
— Tio Papai, você ficou bravo? Se quiser, pode deixar a Dora e a mamãe na beira da estrada. Eu e a mamãe podemos pegar um táxi para ir à casa da bisavó.
Sérgio se viu obrigado a dizer:
— O papai não está bravo.
— O papai só está feliz porque você é uma filha muito carinhosa e dedicada.
Dora não entendia muito bem o que significava ser devota.
Apenas achava que deveria queimar mais dinheiro de papel para o Tio Papai, assim ele ficaria muito mais feliz.
Quando Júlia voltou da loja de conveniência, sentiu que a atmosfera dentro do carro estava estranha.
Sérgio permanecia em silêncio, encarando a faixa de pedestres com uma expressão gélida e irritada.
Parecia que a qualquer segundo iria pisar fundo no acelerador e atropelar tudo pela frente.
O carro seguiu com o som abafado do motor até parar em frente à mansão ancestral.
Júlia conduziu Dora pelo pequeno jardim.
Dora nunca tinha visto uma mansão tão grande. Olhava para todos os lados, maravilhada.
Mal haviam passado pela porta, Dona Helena e Dona Eunice vieram recebê-las.
— Julinha chegou! E a minha bisneta também! O seu nome é Dora, não é?
A saúde de Dona Helena havia piorado muito nos últimos anos.
Ela até queria ter ido recebê-las no portão, mas não conseguia ficar em pé por muito tempo.
No instante em que viu a criança, seus olhos marejaram.
Quando os idosos choram, não é como as lágrimas brilhantes dos jovens, mas sim lágrimas opacas e amareladas, que trazem uma tristeza de foto antiga.
Júlia percebeu que a avó estava se esforçando para conter o choro e bateu levemente no ombro da filha.
Dora voou até ela como uma borboletinha amarela.
— Pequena senhorita, o que você gosta de comer? A Dona Eunice vai preparar para você, está bem?
Dora olhou obedientemente para a mãe.
Júlia sabia que a avó queria que Dora ficasse mais um pouco, então concordou:
— Dona Eunice, a Dora deveria te chamar de avó Eunice, senão as gerações ficam bagunçadas.
— A Dora não é muito exigente para comer, mas não pode comer amendoim. Ela tem alergia.
Assim que terminou de falar, todos na sala olharam para Sérgio.
Sérgio disse:
— Dona Eunice, a Dora gosta de doces. Faça costelinha agridoce, canjica, doce de lótus e, quanto ao resto, fique à vontade para decidir.
Dora também disse:
— Avó Eunice, a mamãe gosta de comida apimentada! O tio aqui do lado não sabe disso. A Dora te pede, por favorzinho.
Ela fez uma pequena reverência com as mãos, arrancando risadas de todos.
Enquanto esperavam a comida ficar pronta, Dora sentiu sono e foi levada para o andar de cima por Dona Eunice para dormir.
Júlia notou que o quarto de hóspedes onde ela costumava ficar havia sido transformado num quarto infantil.
Estava lindamente decorado, inclusive com os bonecos de coelhinho que Dora tanto adorava.
Era evidente que haviam feito aquilo com muito carinho.
Sérgio, com as mãos nos bolsos, estava a alguns passos atrás de Júlia.
Finalmente disse o que queria dizer desde o começo.
— Júlia, você não quer voltar a morar em casa?

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