Sérgio não esperava que Dora abrisse os olhos de repente.
O berro da garota o assustou a ponto de fazê-lo suar frio.
Rapidamente, a porta do quarto foi aberta.
Júlia adentrou o cômodo em pânico.
Ela tomou Dora nos braços e tentou acalmá-la.
A pequena luminária, cujo feixe de luz parecia uma chama tremeluzente, foi acesa com um clique.
Sérgio recuou meio passo, parado e sem saber o que fazer.
De costas para Sérgio, desde os ombros até os braços, toda a postura de Júlia irradiava defesa e proteção. Como se o homem atrás dela não fosse o pai da criança, mas um monstro terrível, prestes a devorá-las.
É claro que Sérgio notou aquilo.
Ficou atônito, observando sua esposa e filha, perdido em uma tristeza profunda.
O brilho ameno do luar invadiu o quarto, soando como um deboche silencioso à sua agonia.
A sua verdadeira intenção em exigir que Júlia trouxesse a filha de volta era dar a elas um lar seguro, e tentar recuperar os dias que haviam se passado.
Ele nunca desejou uma Júlia sensível e constantemente alerta, agindo como se ele fosse um ladrão tentando roubar as duas.
Seus braços pendiam ao longo do corpo.
Foi só quando escutou o pranto de Dora acalmar que ele finalmente pôde soltar um suspiro de alívio.
— Mamãe, você pode dormir comigo? Eu estou com medo.
O coração de Sérgio encolheu, como se raízes espinhosas e retorcidas o estivessem sufocando.
— Claro. Dora, sente um pouco aqui, a mamãe vai buscar um copo de leite quente para você.
Júlia não trocou uma única palavra com Sérgio durante todo aquele tempo.
Ela desceu até a cozinha, e Sérgio a acompanhou em silêncio.
— Me perdoe, eu não achei que a Dora fosse acordar.
— Eu só estava... com receio de ela não se adaptar. Resolvi passar para ver como ela estava.
Enquanto despejava o leite no copo e o aquecia em banho-maria, Júlia disse sem levantar a cabeça:
— Se você já sabe que ela não está adaptada, pare de fazer essas ações inúteis.
— Além do mais, o tempo do Diretor Santana é mais precioso do que tudo. A sua presença é cotada pelo minuto, algo que eu e a Dora jamais teríamos como pagar.
Saber que Lucas estava seguro acalmou os nervos de Júlia.
O centro de lucros da Império Mídia era basicamente dividido em dois: a produção cinematográfica, da qual cuidava o estúdio que Júlia trouxera consigo do Oceano, e a seção de projetos, que dependia inteiramente do aval de Lucas. Júlia liderava a equipe na posição de sócia.
Isso não geraria grandes conflitos no curto prazo.
Júlia havia convidado o Sr. Xavier de propósito para tratar da questão.
— Sra. Júlia, confesso que jamais imaginei que nos cruzaríamos novamente.
Júlia instruiu a sua secretária para que servissem um café.
— Sinto muito em pedir o seu auxílio de novo. Mas o motivo pelo qual solicitei sua presença dessa vez é o mesmo de antes: a guarda.
O Sr. Xavier estava pronto para isso. Passou os documentos para as mãos de Júlia.
— Já conversamos a respeito há três anos. A sentença da justiça é decidida baseando-se única e exclusivamente no melhor interesse da criança.
— Vamos começar pelos pontos que nos beneficiam: os fatos. O bebê viveu fora do país sob a sua tutela desde o dia em que nasceu até os três anos de idade. Todas as necessidades de sustento, moradia, médico, escola e zelo ficaram aos seus cuidados integrais.
Júlia acenou em concordância:
— Guardei um vasto número de documentos para comprovar tudo isso, incluindo recibos, histórico escolar e meus próprios registros assinados. Se precisarmos, eu até encontro babás, as antigas vizinhas estrangeiras e médicos dispostos a testemunhar ao meu favor.

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