Ela havia se deixado enganar por aquele rosto bonito e por aquela máscara de falsa gentileza.
Foi um erro tremendo.
Depois do jantar, Júlia levou Dora para o quarto de hóspedes.
O cômodo já havia sido transformado em um quarto de princesa, tornando-se quase irreconhecível.
— Mamãe, você não está muito ocupada hoje?
Dora encolheu-se sob os lençóis, olhando cautelosamente para a mãe.
Júlia pôde sentir o pânico e o medo exalando da filha.
Aquelas palavras soavam atenciosas, como se a menina estivesse sendo compreensiva.
Mas o que ela realmente perguntava era: Mamãe, você pode ficar mais um pouquinho comigo?
Dora era muito sensível por natureza. Enquanto moravam no exterior, ela havia crescido cercada de crianças de feições completamente diferentes das suas. Tinham se mudado para várias cidades e morado em diversos lugares.
Inerentemente, detestava a instabilidade.
A cada mudança de ambiente, precisava de muito tempo para se adaptar.
— A mamãe não está ocupada. Daqui para frente, vou ler histórias para você todos os dias.
— É por causa daquele moço que se diz meu pai?
Júlia não respondeu.
Dora voltou a perguntar:
— Esse moço é mesmo mau?
Apesar de Dora ter dito isso algumas vezes, da primeira vez que conhecera Sérgio, ela havia sentido uma certa afinidade com ele.
— A mamãe vai dar um jeito em tudo. — prometeu Júlia.
Ela realmente não queria que a criança cultivasse a ideia de que pertencia a uma família fracassada, ou de que seu pai e sua mãe eram inimigos.
Ela era ela, Dora era Dora. As desavenças não deviam respingar na menina.
Júlia afagou levemente o ombro da filha, escolhendo propositalmente as histórias que a menina já estava acostumada a ouvir.
O que antes levava no máximo uma hora para a menina adormecer, hoje custou quase três.
Júlia estava simplesmente repleta de ódio por Sérgio.
A porta do quarto se abriu.
Sérgio estava de pé no batente da porta. Com medo de acordar a filha, ele não disse uma palavra. Apenas estendeu uma das mãos, indicando para Júlia segurá-la e ir com ele para o quarto deles.
Júlia abriu um sorriso irônico.
— Pelo que me lembro, há mais de um quarto de hóspedes neste solar.
Sérgio falou sem pensar:
— O do andar de baixo foi transformado no quarto de Bernardo Santana.
Ao dizer aquilo, um silêncio constrangedor recaiu sobre ambos.
Júlia sentiu um profundo nojo.

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