E pior ainda, a sua mãe havia ouvido boatos de que o filho da amante do seu marido tinha entrado na mesma escola de elite que Sérgio e ainda havia ficado em primeiro lugar em uma das provas.
— Há mais de vinte anos, havia um grande bosque aqui perto. No começo, eu realmente achava que os animais que eu cuidava tinham apenas se perdido.
Os dedos de Sérgio se contraíram de forma inconsciente.
O fundo do copo de vidro arrastou-se pelo balcão emitindo um ruído agudo, mas ele parecia não notar.
Aquele período obscuro parecia ter repentinamente ganhado vida.
Ele ainda se lembrava de quando, todos os dias, ficava agachado na porta de casa, com petiscos nas mãos, esperando os coelhinhos voltarem, envolto pelo ar úmido e pelo cheiro de terra molhada.
Claro que Sérgio não teve sucesso em suas esperas.
— Mas um dia, enquanto fazia um trabalho de ciências, desenterrei uma pilha de ossos no quintal de trás.
Júlia cobriu a boca de leve.
Sérgio desenhou um círculo qualquer no ar:
— Um amontoado desse tamanho.
A cada cavada da pá, os ossos, em variados estágios de decomposição, surgiam da terra. Entre os tufos de pelos sujos e desbotados, vermes se aglomeravam.
Ainda tão pequeno, Sérgio ficou ali, paralisado.
Pelo formato e tamanho, ele conseguia distinguir a quem cada ossada pertencia e os nomes que tinham em vida.
Sérgio caiu mole no chão e acabou pegando uma doença grave.
Ele chegou a questionar, tentou se rebelar.
A mulher, porém, apenas sorriu friamente:
— Eu já não te falei que o seu tempo deveria ser todo dedicado aos estudos? No futuro, você será o herdeiro da família Santana. Como você ousa se perder em bobagens feito um moleque qualquer?
Ela apontou para a cova no chão com os dedos tingidos de esmalte:
— Está vendo? Isso tudo é consequência da sua desobediência. Sérgio, foi você quem causou a morte desses bichinhos.
Júlia viu que o olhar de Sérgio estava vazio.

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