Heloísa desafinou de repente a melodia que estava cantarolando.
Tinha bebido demais no almoço e passou a tarde aérea. Ele a deixou descansar no escritório e, quando estava quase na hora de ir embora, chamou-a à sua sala e disse que ela já podia ir para casa.
Achou que... não se veriam mais hoje.
Pegou a sacola de compras que estava no banco do passageiro, saiu do carro e caminhou até ele.
"Presidente, o que o senhor faz aqui a essa hora?"
Ela parou diante dele, com um tom de voz absolutamente casual.
Como se tivesse encontrado um superior na rua; toda aquela animação tinha, na verdade, muito de falsidade.
A luz debaixo da árvore era um pouco fraca, mas havia um poste logo ao lado. Mesmo difusa, permitia que vissem claramente o rosto um do outro.
Heloísa sorria com os olhos semicerrados.
O olhar profundo e insondável de Nélio deslizou do rosto dela para as mãos. "Já passou a ressaca?"
"Sim, já passou," Heloísa assentiu. "Na verdade, eu aguento bem a bebida. Fico tonta rápido, mas me recupero rápido também."
"Percebi, você ficou bem em pouco tempo."
"Também não cheguei a ficar tão bêbada assim, eu sempre sei a minha medida."
"Deu pra notar, você tem mesmo bom senso."
Ele riu baixo.
"......"
Heloísa apertou a sacola nas mãos.
Ela não respondeu, e o silêncio logo caiu entre eles.
A naturalidade forçada que tentava manter estava quase desmoronando nesse silêncio arrastado.
Nélio também ficou calado.
Observava-a quieto, postura serena, olhar de quem compreende tudo, mas não expõe nada, transmitindo-lhe a sensação de que estava ali para julgá-la.
Heloísa sentia-se sufocada sob aquela pressão.
A irritação foi crescendo aos poucos.
Como esse maldito verão: já é quente e abafado, e ainda assim os pernilongos insistem em zumbir no ouvido, picam você, fazendo coçar tanto que dá vontade de arranhar a pele até ferir...

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