— Ceci, daqui a alguns dias será o aniversário de setenta e oito anos do Roberto. Você consegue arranjar um tempo para vir jantar conosco? — Do outro lado da linha, a voz de Judite soava firme e cheia de energia.
Cecília hesitou. Na verdade, ela estava procurando uma forma de recusar que fosse aceita de bom grado por Judite, sem magoá-la.
— Fique tranquila. Vamos apenas sair para comer juntos, sem festa de aniversário. Seremos só nós e a Flavinha. — Ao perceber seu silêncio, Judite entendeu imediatamente o que ela estava pensando.
Cecília olhou para o calendário. O aniversário de Roberto cairia numa quarta-feira.
— É que estarei ocupada... — Ela começou a responder, insinuando que provavelmente não conseguiria se ausentar do trabalho.
— Quando é que você está ocupada? — O tom de Judite baixou imediatamente, mas não era uma repreensão. Ela sabia que Cecília realmente tinha uma rotina pesada. — Eu tenho uma ideia.
— A senhora sempre tem as melhores ideias. Então agradeço desde já. — Um sorriso involuntário surgiu nos lábios de Cecília.
O carinho e a consideração demonstrados por Judite e Roberto eram o tipo de afeto familiar que ela sempre tinha desejado profundamente. Ela simplesmente não conseguia rejeitá-los.
— O Roberto gosta muito daqueles biscoitos que você faz. Quando vier, traga alguns. Considere isso o presente de aniversário dele. — Judite aproveitou para especificar o presente, temendo que ela gastasse dinheiro com algo caro.
Cecília sentiu um calor no coração ainda maior.
— Tudo bem. Vou fazer exatamente como a senhora disse.
Após encerrar a ligação, seus traços delicados pareciam muito mais suaves.
Com a porta do escritório entreaberta, um homem permanecia parado ali. Sem deixar de ouvir uma única palavra da conversa, sua mão soltou a maçaneta e a porta se abriu completamente.
O leve ruído trouxe Cecília de volta à realidade e, ao olhar naquela direção, ela se levantou imediatamente.
— Sr. Heitor.
— A minha avó precisava de alguma coisa? — Heitor caminhou até ela e parou à sua frente.
— Não... não foi a Sra. Judite que me ligou. — Cecília raramente mentia. Seus olhos claros vacilaram por um instante. Sob o olhar penetrante do homem, era evidente que ela estava mentindo. Sua garganta apertou e, com as costas rígidas, ela tentou sustentar a mentira até o fim. — Fui eu quem liguei para ela. Disquei errado sem querer e acabamos conversando um pouco.

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