A severidade natural que emanava de seus traços parecia ainda mais evidente naquele momento.
Sandra puxou Nicole pela mão e a fez levantar.
— O assunto é de vocês, então resolvam sozinhos. — Enquanto falava, lançou um olhar significativo para a filha, sinalizando para que dissesse algumas palavras agradáveis a Heitor.
Praticamente empurrada pela mãe, Nicole foi até ele.
Heitor permanecia sentado, olhando para a frente, sem sequer dirigir-lhe um olhar.
Ela baixou a cabeça, fitando os cabelos curtos e impecavelmente aparados do homem, sem saber como começar.
Enquanto isso, Sandra sentou-se ao lado de Tânia e segurou seu braço com intimidade.
— Tânia, a Nicole praticamente cresceu na casa da família Siqueira. Foi você quem a viu crescer. Essa menina sempre foi muito ingênua, nunca teve más intenções. — Ela fez uma breve pausa. — Na minha opinião, essa história toda também tem a ver com a Cecília...
— O que a Cecília tem a ver com isso? — Judite explodiu no instante em que ouviu o nome dela. — Com quem ela namora, de quem ela gosta, se vai ter um filho ou se vai se casar... o que isso tem a ver com vocês? Se vocês ficam procurando com o quê implicar, a culpa é de quem?
Sandra ficou muda na mesma hora.
Ainda assim, aquelas poucas palavras bastaram para despertar novamente a compaixão de Tânia.
Afinal, ela realmente tinha visto Nicole crescer. E, aos seus olhos, aquela menina sempre foi sincera e simples.
Ao erguer a cabeça e vê-la parada diante de Heitor, com lágrimas prestes a cair, sentiu novamente o coração amolecer.
— Heitor, de qualquer forma, você também tem uma parcela de culpa com a Nicole.
Assim que ela terminou de falar, Judite revirou os olhos tão intensamente que virou o rosto para o outro lado e simplesmente fechou os olhos. Parecia até recear que, se continuasse olhando, acabaria machucando os próprios olhos de tanto revirá-los.
Heitor levantou-se e deu um leve puxão no paletó para alisá-lo.
— Venha comigo. — Disse a Nicole, virou-se e caminhou até a varanda.
Nicole mordeu o lábio e o seguiu.
— Converse direito com ele. — Sandra sussurrou antes que a filha saísse.
A varanda estava banhada pela luz do sol.
Heitor apoiou a cintura firme contra o parapeito. De pé, contra a luz, seu rosto permanecia escondido pelas sombras, tornando impossível decifrar sua expressão.

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