O Ano-Novo era, todos os anos, o período mais frio em Belnorte.
Em todos os anos anteriores, Judite dava folga a todos os empregados da casa, para que a família pudesse passar o feriado verdadeiramente reunida.
Mas, naquele ano, Tânia e os outros haviam viajado para o exterior de férias, e a casa parecia vazia, fria, sem vida.
— Vó, que tal a gente chamar a Ceci de novo? — Flávia ainda não tinha desistido. — Se ela vier, a casa fica animada. À noite a gente faz o jantar juntos e passa a virada...
— Você quer é que ela venha trabalhar, isso sim. — Judite lançou-lhe um olhar atravessado.
Desde que Cecília tinha se casado com Heitor, nos últimos dois anos, ela era a principal responsável pelo jantar de Ano-Novo. Ela cozinhava incrivelmente bem, até Tânia reconhecia isso.
Por isso, aquele feriado tinha se tornado raros momentos de harmonia familiar. Tanto Judite quanto Flávia gostavam daquele ambiente caloroso.
— Claro que não! — Flávia respondeu sem hesitar. — O principal motivo é que a Ceci vai passar o Ano-Novo sozinha. É uma pena. Eu não acredito que ela goste disso. Naquele dia no hospital, ela só deve ter ficado com vergonha de aceitar.
— Então tenta ligar para ela de novo. — Judite suspirou, ela também queria que Cecília fosse.
Não importava de quem fosse o filho que Cecília carregava, nem se ela voltaria ou não a se casar com Heitor, Judite ainda gostava muito dela.
Flávia imediatamente pegou o telefone e ligou. O telefone tocou por um bom tempo antes de ser atendido.
— Flavinha...
— Ceci, você está em casa? — Flávia ouviu o silêncio do outro lado. Não parecia o barulho típico do orfanato.
Eram nove da manhã. Cecília havia dormido pouco mais de duas horas e tinha sido acordada pela ligação.
— Estou em casa. O que foi? — Sua voz saiu rouca, arrastada.
— A vó ainda quer que você venha passar o Ano-Novo aqui. Os empregados estão de folga, meus pais foram viajar, sobrou só a gente. Daqui a pouco nem comida vai ter.
Flávia exagerava de propósito. Não pretendia que Cecília trabalhasse, mas sabia que só assim aumentaria as chances de convencê-la. Mas Cecília conhecia bem o jeito dela.
Nos anos anteriores, quando preparava o jantar sozinha, Flávia sempre ficava ao lado, ajudando em tudo, com medo de que ela se cansasse.
— Flavinha, não é apropriado eu ir. — Cecília respondeu, com um leve suspiro.
— Não precisa se preocupar! — Flávia, ao ouvir isso, apressou-se. — Daqui a pouco meu irmão vai procurar a Nicole, ele nem vai voltar hoje à noite! Em casa só vamos estar eu, o vovô e a vovó! — Enquanto ela falava, Heitor desceu as escadas. — Irmão, a vó quer que a Ceci venha passar o Ano-Novo aqui. Você não tem nada contra, não é?

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