No instante em que ouviu a voz de Heitor, Cecília sentiu um arrepio na espinha. Por reflexo, tentou esconder o documento, mas Heitor já havia parado ao ouvir as palavras de Ariane.
Seu olhar afiado pousou diretamente nela, mais precisamente, em Ariane, ocupando a cadeira de Cecília.
Cecília virou-se e encontrou o olhar investigativo dele. Ela estava prestes a falar, mas Ariane a interrompeu.
— Presidente Heitor, a Cecília vai finalizar o processo de demissão daqui a pouco. De agora em diante, eu assumirei o trabalho dela! Vou preparar a reunião!
Ariane não deu qualquer chance para Cecília abrir a boca. Assim que aquelas palavras saíram, Cecília sentiu a respiração travar.
Uma palavra surgiu em sua mente: Acabou.
— Quem vai se demitir? — Os olhos de Heitor se estreitaram de repente.
— Cecília. — Ariane respondeu sem hesitar. — Assim que ela assinar, pode ir embora.
O olhar de Heitor caiu sobre o termo de rescisão, onde Cecília havia acabado de fazer o primeiro traço da assinatura. Sua expressão escureceu, a aura fria ao redor dele tornou-se tão cortante quanto uma noite de inverno em Belnorte. Especialmente ao reconhecer a própria assinatura no documento. Seu olhar tornou-se afiado como uma lâmina quando pousou no rosto de Cecília.
As sobrancelhas delicadas dela se contraíram. Além do desconforto de ter sido pega no meio da assinatura, não havia qualquer traço de pânico em sua expressão.
Quem realmente entrou em desespero foi Ariane. Foi então que ela percebeu que, na noite anterior, Heitor tinha assinado aquele papel acreditando que fosse um pedido de licença! Ou seja, ele sequer sabia que Cecília estava se demitindo.
— Sr. Heitor, foi a Srta. Nicole quem mandou eu fazer isso! — Em pânico, ela se explicou.
— Entrem. — Heitor largou apenas essa palavra antes de se virar e entrar no escritório.
Cecília mordeu levemente os lábios e rapidamente completou a assinatura no documento antes de segui-lo.
Ariane entrou logo atrás.
Dentro do escritório, Heitor permaneceu em silêncio. Sua expressão sombria fazia o ar parecer rarefeito.
Ele lançou um olhar para Cecília. Ela vestia um casaco de pele em tom acastanhado, combinado com uma calça preta larga e sapatos baixos quase sem salto. Alta e magra, parecia ficar bonita com qualquer roupa. Seu rosto claro e delicado adquiria diferentes auras dependendo do estilo que usava. À primeira vista, parecia dócil e fácil de controlar, mas a realidade era outra.
A única coisa que ocupava a mente de Heitor era aquele traço de assinatura que ela quase tinha completado.

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