— Não quero. — O pomo de Adão de Heitor subiu e desceu antes de pronunciar apenas aquelas duas palavras.
— Ah... — Rodrigo disse calmamente. — Então deixa para lá. Bebi bastante, vou dormir.
— Pela sua voz, ainda dá para beber. — Heitor respondeu de imediato. — Bebe mais um pouco. Eu vou aí.
Rodrigo ficou em silêncio.
— Se você realmente quer saber, posso te contar tudo por telefone.
— Não quero saber. — Ele respondeu com tanta convicção que parecia que seu único objetivo era beber um pouco para aliviar o calor sufocante da noite de verão em Santa Marina.
O hospital havia providenciado um apartamento para Rodrigo. Era uma cobertura espaçosa no centro da cidade.
Quando Heitor chegou, a porta já estava aberta. Era evidente que Rodrigo estava esperando por ele. Ele entrou carregando duas garrafas de vodca de alto teor alcoólico e uma garrafa de vinho tinto.
— Você pretende me matar de tanto beber hoje? — Rodrigo pegou as garrafas e, enquanto abria uma, disse. — Amanhã eu trabalho. Só vou tomar uma taça com você.
Heitor soltou um breve som pelo nariz, sentou-se diante do sofá e aceitou a taça que Rodrigo lhe entregou.
Eles já haviam compartilhado momentos bebendo em silêncio inúmeras vezes antes. Mas, desta vez, Rodrigo percebeu de imediato que Heitor tinha algo preso na garganta.
Fingindo não notar, foi bebendo aos poucos, conversando sobre o trabalho e relembrando histórias do passado.
À uma da manhã, ele pousou a taça vazia sobre a mesa e se levantou.
— Você bebeu bastante. Fica por aqui hoje, vá descansar. — Enquanto falava, caminhou em direção ao quarto.
— Você não ia me contar sobre Murilo? — Recostado no sofá, Heitor mantinha uma perna dobrada. A postura era naturalmente relaxada, mas havia nela uma inquietação evidente.
Rodrigo soltou uma risada baixa e voltou a se sentar.
— Murilo me perguntou quando foi, mais ou menos, que a Cecília engravidou.
— O que isso quer dizer? — Heitor franziu as sobrancelhas.

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