Ponto de vista da Selene
"Selene, você está pronta?" Odette bate à porta do closet com a voz amável extraordinariamente sombria.
"Sim." Respondo, alisando as saias. "Pode entrar."
A porta se abre e o lindo rosto da minha sogra aparece. Ela se esgueira pela abertura estreita e se aproxima de mim com uma expressão melancólica. "Oh, minha querida." Odette murmura triste, e seus olhos brilham enquanto ela estuda o meu reflexo. "Eu realmente achei que vocês dois iriam conseguir superar tudo."
"Eu também." Admito, olhando para cima tentando evitar as lágrimas. "Por um tempo."
Sua mão se fecha em torno da minha, apertando-a suavemente. "O que aconteceu, Selene?" Ela pergunta, gentil.
De repente, percebo que não estou apenas perdendo o meu marido, mas as únicas figuras parentais que tive desde que a minha mãe morreu. Limpo uma lágrima que escapa. "É o que o Bastien quer."
Odette franze a testa, e a pele ao redor de seus olhos castanhos calorosos enruga sob o peso de suas sobrancelhas delineadas. Ela abre a boca para falar, mas antes de dizer qualquer coisa, o sangue some de seu rosto em uma corrida frenética, deixando-a branca como um lençol. Seus olhos se arregalam, e seu corpo se dobra, curvando-se contra a sua vontade. Sua boca se abre em um suspiro sem fôlego, emitindo um grito estrangulado.
"Odette!" Exclamo, apoiando-a pelos braços para que não caia. "O que está acontecendo?"
Sua boca se abre e fecha sem emitir nenhum som, seu corpo treme sob as minhas mãos. "É o Gabriel."
Antes que eu possa impedi-la, ela se desvencilha de mim e voa do closet pelo corredor. Corro atrás dela, nunca vi alguém tão angustiado e com tanto medo.
Alguns guardas começam a nos seguir quando nos veem correndo, todos entram em ação ao mirarem a expressão no rosto de Odette. Ela irrompe no escritório de Gabriel, congelando na porta.
Sei o que aconteceu assim que ouço o seu gemido sufocado. Não preciso vê-la tropeçar contra o batente da porta, caindo no chão com os membros trêmulos. Não preciso ouvir os gritos que se seguem, nem o choro. Não preciso vê-la rastejando pelo chão de joelhos, procurando algo fora da nossa vista.
Eu me aproximo dela e a encontro deitada no sangue de Gabriel, com o corpo jogado sobre o dele, dilacerada por soluços violentos e arfantes. O Alfa olha fixamente para o teto, com sua pele em um tom berrante de cinza.
Coloco a mão com força sobre a boca, tentando segurar a minha própria dor. Não posso desmoronar, não quando a vejo sofrendo tanto. Odette precisa de mim para manter tudo sob controle, Bastien precisará... Bastien.
Sei que os guardas já foram atrás dele, mas em um ataque de pânico irracional tento bolar um plano qualquer para detê-los. Ele não deveria ver isso, ele não deveria perder o pai tão jovem. Abraço Odette enquanto ela chora e rezo para que tudo seja um pesadelo.
O sangue quente e grosso mancha o meu vestido de noiva, a minha pele e nos encharca. O odor da morte é denso no ar, e imagino até sentir o cheiro de sal das lágrimas de Odette.
Ouço o som de passos pesados chegando e sei que minhas preces não foram atendidas. Então, Bastien se eleva na entrada, parecendo de repente muito jovem, apesar de sua aura intimidadora.
Seu olhar prateado viaja pelo corpo do pai, da mãe e pelo meu. Meu lábio treme, vê-lo desse jeito quase me faz chorar. Ele parece tão perdido, uma criança à deriva em um mar de incertezas. Consigo ver o garotinho que ele já foi, aquele que se mirou no pai para alcançar a lua.
Ele avança em transe com os olhos fixos no corpo do pai. Caindo de joelhos ao meu lado, Bastien ruge de fúria e desespero. Observo, impotente, enquanto ele cai para a frente e abaixa a cabeça sobre o corpo imóvel de Gabriel, com as mãos cerradas em punhos brancos.
Nunca tinha visto Bastien chorar. Ele até chegara perto uma ou duas vezes, mas nunca havia chorado de fato como agora. A visão do meu marido indomável quebrado e indefeso me leva ao limite. Lágrimas escorrem dos meus olhos, e então Bastien se aproxima de mim cegamente.
O braço dele pega a minha cintura, e ele me puxa para o seu colo. Bastien me aperta como um cobertor de segurança enquanto puxa a mãe do outro lado. Ficamos assim, como uma pilha, soluçando e manchados de sangue, até os executores do bando chegarem.
Tudo acontece em um borrão. Aiden de repente chega e segura o ombro de Bastien, gentilmente dizendo que precisamos nos afastar para que os investigadores possam avaliar a cena.
"Ainda não. Eles não conseguiram nem identificar o cheiro do assassino, disseram que muitas pessoas entraram e saíram daqui para identificarem qualquer coisa."
Já estou me xingando por ter feito a pergunta. Encontrar os responsáveis pelo crime é um problema a ser resolvido depois, e ficar pensando nisso agora é como tentar normalizar circunstâncias que são tudo menos isso.
Diminuo a distância entre nós, e Bastien vira a cadeira para me encarar quando finalmente paro na frente dele. Ele me puxa entre suas pernas e me encara com olhos arregalados e sem esperança. "Me diga que isso é só um pesadelo?" Ele implora, colocando as mãos na minha cintura.
Minha garganta coça, incha e lateja de emoção. "Eu sinto muito." Falo em lágrimas. "Me desculpe."
Bastien se fecha sobre si mesmo, caindo para frente até que sua testa esteja nivelada às minhas costelas. Ele coloca os braços musculosos em volta da minha cintura e enterra o rosto na seda do meu corpete antes de desabar por completo.
Faço o que posso para tentar acalmá-lo, fazendo sons suaves e acariciando seus cabelos, ombros e costas. Depois de um tempo, caio de joelhos e pego seu rosto manchado de lágrimas nas mãos, eu o fito com todo o amor que tenho em mim. "Você precisa se limpar também. Vamos, me deixe cuidar de você pelo menos uma vez."
Com um aceno de cabeça obediente, Bastien me deixa levá-lo até o nosso apartamento, onde o puxo para o banheiro e tiro nossas roupas, para, em seguida, desaparecermos os dois no vapor de um banho quente. Esfrego o sangue da nossa pele, desejando que a água abrasadora alivie a tristeza dele tão perfeitamente quanto tira os ratros da morte do seu pai.
Quando finalmente saímos, guio o meu marido para a cama e o cubro com cobertas. Quando tento me afastar, a mão de Bastien agarra o meu pulso e me mantém cativa. "Fica comigo esta noite?" Ele implora, vulnerável como nunca o vi antes. "Por favor?"
Eu achava que o meu coração já estava partido, mas ao vê-lo dessa forma, ele rachou ao meio. "Claro." Deslizo na cama ao lado dele.
Bastien se agarra a mim com tanta força que mal consigo respirar, e, por um momento, até considero pedir a ele para afrouxar o aperto. No entanto, abandono o pensamento assim que ele entra na minha mente. Por mais horrível que esta noite seja, por mais que eu deseje voltar ao tempo para evitar toda essa dor, uma pequena parte de mim aprecia o fato de que esse homem incrível e poderoso encontra conforto em mim.
Eu o abraço com o meu corpo, envolvendo-o em meu amor e carinho pelo que provavelmente será a última vez. Amanhã ele provavelmente irá atrás de Arabella em busca de consolo, mas esta noite eu sou o suficiente. Sou o suficiente, e isso é tudo que eu sempre quis ser.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Arrependimento após a Rejeição
Eu simplesmente amei os 4 primeiros capítulos e espero que não demore muito para atualizar os outros...